segunda-feira, 12 de novembro de 2012

NA OFICINA DO MESTRE JOÃO ALBERTO

“A fibra de vidro está na moda, percebe? Livram-se de calafetar, tudo bem mas havia de haver uma escola onde os jovens que quisessem aprendessem a construir a arte de construir em madeira”. Bati à porta do Mestre João Alberto das Neves num dia de borrasca. Desde o dia anterior que vagas sucessivas arremetiam contra o molhe em cimento do cais de Santo Amaro, na costa norte da Ilha do Pico. Mais adiante, rochedos negros e afiados libertavam espuma branca como baba em fúria. Ali por perto e infelicidade minha, o museu privado de construção naval de Santo Amaro estava fechado. A freguesia foi sempre um grande centro de construção naval e João Alberto, juntamente com outros mestres, um dos seus artífices. Recentemente foi homenageado numa exposição organizada pelo Museu do Pico e exibida no Museu da Indústria Baleeira em São Roque. No prefácio ao livro da exposição, Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico explica que homenagear o Mestre João Alberto é também revisitar “a memória dos Mestres Manuel Bento, Manuel Joaquim Melo, José Melo, José Teixeira Costa e Júlio de Matos, e a de todos os mestres, contra-mestres, carpinteiros e restantes trabalhadores que participaram na epopeia da construção naval em Santo Amaro e no Pico”. Quando chegou a Santo Amaro em 1961, vindo da sua nativa Urzelina, em São Jorge, Santo Amaro era palco de muitas construções de navios: “Era um movimento muito grande. Havia aqui três mestres e esses três não davam para as encomendas”. João Alberto das Neves foi trabalhar para o estaleiro do Mestre José Teixeira Costa. “Trabalhei com ele até 1972. Construímos 17 traineiras”. Foi então que se estabeleceu por conta própria. Ao todo, ao longo dos tempos, construiu 50 embarcações. Só atuneiros de grande porte para a chamada “Frota Azul” foram 10. “Tinha havido uma paragem grande na construção e o governo regional apostou na construção da frota azul. O mestre José Costa ainda fez dois antes de morrer, eu fiz 10”. Hoje, o mestre João Alberto das Neves lamenta o estado a que chegaram embarcações emblemáticas da região. “Mal empregadas…a lancha Espartel está a apodrecer, a Espalamaca também. Foi morrendo tudo, restam quatro traineiras que construí”. A construção em madeira decaíu muito. Uma das razões é a fibra de vidro, outra é a protecção ao cedro do mato. “Tinhamos o cedro do mato para trabalhar. Inventaram que o cedro do mato está em extinção. Deviam deixar uma quantidade de cedro destinada a construir. Todos esses atuneiros que eu fiz foram com cedro do mato. Agora, o mestre dedica-se a pequenas reparações. “Sim, reparações pequenas. Neste momento estou na Madalena a reparar um barquinho em madeira e fibra”. De vez em quando faz miniaturas. Um exercício de nostalgia. Na oficina há dezenas de fotos dos 50 botes, lanchas e traineiras que foi construindo ao longo da vida mas várias miniaturas em madeira: “Tinha aqui um começado mas depois o senhor foi para a América, nunca mais o vi. Ainda aqui estão os tirantes…” pico 96 a 111 110

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