sábado, 3 de novembro de 2012

"AS BALEIAS? ERA O BICHINHO E A NECESSIDADE"

pico 96 António Domingos Ávila, 67 anos, baleeiro, ex-arpoador, mais conhecido por "Ritinha", fala comigo na esplanada do estabelecimento com o mesmo nome, nas Lajes do Pico: "Tenho este café há mais de 30 anos. Andava na baleia e regressava aqui para uns petiscos, uns caldos de peixe". Como muitos ali nas Lajes, pertence a uma família de baleeiros. "O meu bisavô foi capitão de uma baleeira americana em New Bedford. Na minha família havia arpoadores e trancadores". O "bichinho" da caça à baleia cresceu cedo em António Domingos Ávila. Aos 16 anos começou a ir ao mar em substituição de algum marinheiro que adoecia ou se pisava. Mais tarde, tirou carta de arpoador. "Comecei a trancar baleia aos 19 anos". Ao longo da vida de marinheiro, "Ritinha" foi também mestre da pesca do atum em Portugal, em Cabo Verde e durante oito anos em San Diego, na Califórnia. O "bichinho" de perseguir baleias nunca o perdeu. " Fala-se muito de ser uma actividade perigosa mas eu digo sempre que há actividades mais perigosas em terra. Se a baleação continuasse, as mulheres íam. Eu tenho 67 anos e lembro-me de ter morrido um baleeiro quando era criança. De resto, havia pisaduras, partia-se um bote, um braço de um marinheiro, um dedo..." "Ritinha" argumenta que já no seu tempo os utensílios de caça à baleia haviam melhorado: "Foi evoluindo com o tempo. Ultimamente, os panos eram mais leves, os arpões também, os cabos também. O perigo era menor".Ainda hoje "Ritinha" não se conforma de como tudo terminou- "foi tudo negociado nas nossas costas". Sobre a actividade de avistamento de baleias para turistas, conhecida pela designação inglesa de "whale watching", tem a sua opinião bem definida: "Andei nove anos a fazer "ww". O que aconteceu é que das duas ou três baleias que dantes apareciam, agora aparecem nove ou dez e o negócio cresceu muito. Só que antigamente a baleação dava a ganhar a muita gente e agora há um tipo que tem uma empresa, que não percebe nada daquilo, leva os turistas haja baleia ou não e dá a ganhar uns farelos aos que trabalham para ele". António fala dos empresários de "whale watching" sem papas na língua: "Aprenderam comigo. Íam de qualquer forma e espantavam as baleias. Ora, como o cachalote vê para a banda é preciso entrar sempre pelo rabo delas e com cautela para não espantar". "Ritinha" vê o mar dos Açores a ficar saturado e acha que mais tarde ou mais cedo vão ter de ser abertas quotas: "O mar vai ficar saturado de cachalotes e já falta comida aos golfinhos. Tudo tem de ter um controlo".

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