quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

PESCA AO GORAZ NO CORVO

O Corvo, finalmente. São quase 8h00 da manhã do dia 11 de Dezembro de 2012 e o sol ainda não despontou sobre a ilha e a sua pequena vila abrigada na colina. Desde o dia anterior que os homens estão a ir ao mar, depois de duas semanas de intempérie. A época é de pescar o máximo de goraz possível, o peixe mais caro e procurado em Dezembro. pesca 2 Quando ainda me encontrava nas Flores fora acompanhando a frustração de um velho pescador. Dia após dia observava a superfície bravia do mar de Dezembro junto ao “Buena Vista”, o bar das piscinas em Santa Cruz das Flores e encolhia os ombros. “Quando esteve bom tempo, tive o motor avariado e agora não dá. Paciência…” Ouvia-o soletrar paciência mas sentia-lhe o nervoso miudinho, a ansiedade, a vontade de saltar para dentro do barco e pescar. “Agora que o goraz chegou aos 13 euros…” Com a lancha Ariel em terra e sem chances de chegar ao Corvo por mar, no dia 11 meti-me no avião e ao fim de uns sete minutos de voo estava na ilha. Umas horas depois, estava a falar com um homem grande e simples, vestido com uma samarra cinzenta e branca. Chamava-se José Freitas e tinha 45 anos, 14 de mar. Acabara de vir da pesca e no dia seguinte ía voltar para lá. “Quer ir ao mar? Amanhã esteja às 8h00 no porto”. pesca 1 A luz já incidia sobre o casario branco e aconchegado do Corvo quando José Freitas usou a grua para fazer descer à água o “Iasalde”. Daí a pouco estávamos a afastar-nos em direcção ao sueste da ilha. Outras embarcações, do Corvo e de Santa Cruz andariam na zona naquele dia mas nem todas pescariam o que José Freitas, velho lobo do mar pescaria. “A vida do mar é ingrata”, explicar-me-ia mais tarde, com o barco já estabilizado ao largo do Corvo. “Pesquei ontem e se Deus quiser pesco hoje mas amanhã já dão mau tempo para vários dias”. Um anel de nuvens acachapou-se sobre o Caldeirão da ilha enquanto José e o ajudante preparavam as linhas com o isco. “O isco? É bonito, a sardinha está muito cara”. pesca 4 A princípio e acreditando nas palavras e olhar céptico do pescador, pensei que o dia fosse de pouca pescaria. “Aqui há uns anos é que havias de vir comigo aqui, havia muito mais peixe”. O olhar de José Freitas a perscrutar a ondulação cor de zinco parece de pouco entusiasmo. Mas de repente, um pasmo de alegria oferece-se-lhe no rosto. Sorri como uma criança. É o goraz, não um nem dois mas vários que vai retirando de braço esticado e colocando a saltitar dentro de uma caixa. “Eh la, mais um, já não está mau”. Do outro lado da embarcação, sentando junto a uma manivela que segura várias linhas, o pescador cabo-verdeano é menos exuberante. Mas chegará a sua vez. As linhas vão ser puxadas e o peixe aparecerá aos poucos. José Freitas, no lado oposto do barco, só quer saber que tamanho tem o peixe. “É grande? Vamos lá pescar goraz grande”. corvo pesca pesca 3 Junto ao barco, bandos de gaivotas procuram o que comer. José Freitas atira-lhes um peixe. Uma gaivota foge com ele no bico, perseguida por outras tantas. De repente, essa mesma gaivota deixa caír o peixe que é imediatamente roubado por outra. Enquanto os dois pescadores não param, ora a lançar mais linhas ora a cortar mais fatias de bonito para o isco, ali perto desenrola-se uma autêntica batalha de gaivotas pela posse do peixe. Mais à frente, o dorso verde e maciço da ilha como pano de fundo, um grupo de golfinhos atravessam-se em frente ao barco. De-saparecem com a mesma rapidez fugaz com que surgem. Vêem à tona de água, saltam, deixamo-los do ver e…lá vão eles mais à frente. Ao fim do dia, o porão do “Iasalde” com goraz suficiente para satisfazer José Freitas- “ontem e hoje deu umas toneladas boas”- o céu incendeia-se entre as Flores e o Corvo e desfaz-se em tons avermelhados e roxos. O dia de pesca chega ao fim e tudo indica que não se pescará ali tão depressa . corvo 2 Daí a pouco os pescadores corvinos já estarão no bar do Restaurante Traineira a contar uns aos outros as venturas e desventuras do dia. “Fostes com o Freitas?”, pergunta-me um, “pescou bem, nós pescámos muito menos”.

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