quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O DIA EM QUE O AVIÃO NÃO CHEGOU

De um momento para o outro, a mesma Ilha das Flores que resplandecia ao sol benigno do início de Dezembro encolheu-se sobre si própria, vergada aos ventos, ao nevoeiro e à sua eterna sina de insularidade. Quando o avião não chegou e a lancha Ariel não percorreu as milhas náuticas que a separam do Corvo, os florentinos encolheram os ombros. É a metereologia vivida como parte integrante do quotidiano. “Amanhã o avião já vem”. Há uma gaivota a planar sobre o mar de estanho. Um homem jovem caminha vergado sob o vento como um homem velho junto ao muro pintado de branco das piscinas. A mancha amarelada do canavial agita-se entre a encosta tingida de verde e as rochas afi-ladas que descem sobre o mar. O céu fecha-se de branco e engole o que resta do perfil da Ilha do Corvo. Jurava que já tinha experimentado os ventos mais fortes das ilhas mas a manga branca e vermelha do aeroporto e as copas dos últimos cedros do mato em frente ao mar dizem-me que está a começar mais um temporal. Os habitantes acostumaram-se há muito aos ventos, ao céu a descer das encostas em forma de nevoeiro e às rajadas a bater toda a noite nas vidraças humedecidas. mau tempo Os mais velhos contam que o “isolamento” actual não é nada comparado com o tempo em que não existiam estradas mas apenas caminhos enlameados e as Lajes das Flores ainda não conheciam o porto novo. “O barco grande ficava ao largo e a gente transportava tudo em barcaças para terra”, conta um pescador, embrulhado numa samarra, um boné sempre pendurado na cabeça e um olhar permanente sobre o mar que não o deixa pescar. “Agora é a época boa para o goraz mas não está dando para pescar”. O rosto contrai-se numa careta de resignação. “Já tenho 70 anos, já apanhei muitos sustos no canal entre o Corvo e as Flores, baleias, ondas fortes, já estive na Guerra Colonial, é assim…” Ao invés do temor de sismos e erupções de outras ilhas, nas Flores vivem-se intensamente as ventanias, as chuvas e consequentemente as “quebradas” ( desabamentos de terra). A cada passo, na minha caminhada por uma ilha repleta de ribeiras que descem em cascatas pelo meio das encostas verdejantes, confrontei-me com árvores caídas, uma estrada cortada, o acesso a um lugar de águas quentes engolido pelas terras e pelo menos um trilho cortado. Quando, no dia seguinte à borrasca, o Sol tímido de Dezembro rompe o nevoeiro e até celebra as tréguas com um arco-íris sobre Santa Cruz das Flores, vive-se uma espécie de reconciliação com a ilha mais verde. “Você veio em Dezembro a uma ilha isolada no meio do Atlântico, o que é que queria?”, pergunta um florentino de sorriso nos lábios.

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