segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

LUÍS ALVES, DIÁCONO E DINAMIZADOR DE PONTA DELGADA

Diacono Luís Alves, professor na reforma, diácono, ex-presidente da junta de freguesia e ex-presidente da Câmara de Santa Cruz das Flores, tocador e cantador, vive ali em Ponta Delgada, uma autêntica varanda aplainada e verde sobre a Ilha do Corvo. Apesar de ter nascido numa das mais isoladas e pobres freguesias da Ilha das Flores, nunca se resignou ao destino de grande pobreza. “Ui, eramos muito pobres”, recorda Luís, que conheceu a electricidade com 19 anos graças à instalação na zona dos radares franceses.“Havia uma família em Ponta Delgada que inclusivamente vivia numa furna”. Em casa de Luís Alves viviam do que o pai, agricultor que trabalhava em terras de outros, ganhava. Tínhamos um porco, plantávamos batata doce, batata branca, milho, feijão, couves…A nossa ceia era sopas de leite com pão de milho e papas grossas de leite”. Não tinham pão de trigo. “De vez em quando alguém mais rico dava-nos um bocado. Para ter farinha, levávamos a “moenda” (o milho secado) até a um moinho de água que aqui havia”. Ainda em casa, faziam manteiga e nata para vender. “Não existia numerário naquele tempo. A nata e a manteiga era entregue ao senhor da loja (mercearia) que a vendia à fábrica de leite e trocavamo-las por géneros”. Para conseguir ganhar algum dinheiro, íam apanhar sargaço. “Apanhávamos no Sítio do Vento, aqui na freguesia, 202 degraus para baixo e 202 para cima. O meu pai vendia ao quilo. O melhor sargaço era o que vinha enxurrado, batido. Escolhíamos o melhor e sempre dava para suportar a casa”. Foi com o dinheiro que ganhou no sargaço que Luís Alves teimou em estudar. “Comecei por estudar sozinho porque não tinha estrada para ir até Santa Cruz. Depois ía até Santa Cruz e fazia três anos de cada vez. Fui ter com um senhor dos Correios e com um senhor metereologista que me ensinaram Física e Matemática. A professora primária (ensino básico) que vinha aí é que me ensinou o inglês e o francês. Fui fazendo assim, candidatando-me como aluno externo, primeiro nas Flores e depois no Faial”. A chegada dos franceses e da sua base de radares para escrutinizar os mísseis que atravessavam o Atlântico mexeu com a pequena freguesia rural de Ponta Delgada. “Tivemos electricidade em 1969, mais cedo do que noutras zonas da ilha. Muita gente trabalhou nas obras de instalação de valas e electricidade e a população beneficiou do apoio médico dado pelos franceses”. Foram os franceses que construiram a estrada que hoje liga Ponta Delgada a Santa Cruz. Durante a primeira metade do século XX, os locais ou iam a pá ou apanhavam boleia da "lancha da nata", que transportava a nata para a vila. Na época em que os franceses se instalaram em Santa Cruz das Flores já Luís Alves cantava e tocava. “Eu, a minha esposa e o meu pai tocávamos e cantávamos música regional para os franceses, no Hotel que eles tinham em Santa Cruz. Normalmente, íamos lá quando chegava o avião de abastecimento deles, o Transal. Eu tocava viola ritmo, o meu pai tocava viola e a minha esposa cantava em dueto comigo”. Os militares franceses íam buscá-los e levá-los. “Não tínhamos carro. Tive o meu primeiro carro em 1985”. Além de professor, autarca e diácono, Luís Alves foi jogador de futebol, dirigente desportivo, director da Casa do Povo local e ainda do Grupo de Folclore da Casa do Povo da Ponta Delgada das Flores. Ainda hoje, o reportório deste último, tem por base as recolhas feitas por Luís Alves. Flores 60 Flores 61 “Andei pela freguesia a fazer recolha de temas juntos dos mais velhos”, conta. “Alguns foram trazidos de fora da ilha, como o “Vira”. No fim do século XIX, esteve a construir aqui o Farol da Ponta de Albarnaz um tal de João Figueiredo, conhecido como o João “Algarvio”. A minha avó dizia que tinha deixado algumas músicas e o “vira” era uma delas”. Foi com essas músicas recolhidas em Ponta Delgada que Luís Alves partiu para os arranjos coreográficos do grupo de folclore. “Notam-se diferenças em relação a outros reportórios porque vivíamos muito isolados mas eu acho que é a diferença de ilha para ilha e de freguesia para freguesia que faz a riqueza do folclore”. Luís Alves envolveu-se em práticamente tudo o que era a vida quotidiana e especialmente cultural de Ponta Delgada. “Fomos os primeiros a apresentar marchas de São João com letras e música minhas, celebravamosas Rondas dos Reis, a Passagem do Ano e o no Carnaval organizávamos danças de arco e espada, com um mestre e um contra-mestre vestidos à militar”. Entre 1980 e 2000, organizou uma tuna com violões, viola da terra, bandolins e violino e mantem um grupo, o “Vozes do Norte”, com mais cinco elementos. Catequista durante 35 anos e membro do coro da Igreja de Ponta Delgada, Luís Alves cursou teologia durante cinco anos e é actualmente um dos três diáconos dos Açores. “Só não posso consagrar a hóstia nem perdoar os pecados uma vez que sou casado. Meu Deus, eu às vezes não acredito na quantidade de coisas que faço ou já fiz”. Flores 58

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