sexta-feira, 23 de março de 2012

" A FERRARIA 'TÁ UM BOCADINHO PARA O LUXO"

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Nasceu na Maia, do outro lado da ilha, por isso aqui nos Ginetes lhe chamam o Manuel "da Maia", embora o seu nome de baptismo seja Manuel Pimentel da Costa. "O meu pai veio tomar conta de um prédio de um senhor de Guimarães. Estou aqui há 62 anos".
Manuel é agricultor, um dos últimos numa freguesia rendida à agro-pecuária e ao trabalho em Ponta Delgada, quando há. Mas, sobretudo, é um homem da terra, do mar, lavra, semeia, pesca e caça ou gostava de caçar. Já pescou tanto na Ferraria, onde agora foram remodeladas as termas, que tem lá um pesqueiro com o seu nome: Cova da Maia.
"Já pesquei muito, já ganhei taças, pesco moreia, abrotea, sargo, anchovas, bodeão, peixe viola...Anchovas é aos quilos..."
Ainda as termas da Ferraria não estavam remodeladas como agora, com restaurante e spa e piscina interior e massagens e já Manuel da Maia transportava doentes. "Cheguei a levar lá doentes que não conseguiam andar, iam em cima das albardas dos burros. Lembro-me de um trancador de baleias das Capelas que veo para aí todo curvado e ao fim de 21 banhos foi pelo seu pé". A água era bombeada e levada em barris para a velha casa que lá existia.
Hoje, Manuel não está muito satisfeito com a obra: "Gastaram milhares de euros ali, o nível de água está subindo imenso e o areal entope a tubagem. Tenho medo que fique ali um novo hotel Vista do Rei (referência ao Hotel Monte Palace que está abandonado junto à Lagoa das Sete Cidades).
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Manuel também acha que a Ferraria devia continuar a ser para todos: "Está um bocadinho para o luxo, o senhor está a compreender? Devia ser para todos como antigamente, o meu amigo entra e eu entro e entramos todos como na igreja, não é assim?"
Nos Ginetes, Manuel já foi um pouco de tudo desde dono de um dos cafés- "Eu não parava ali, eu sou homem da terra, como é que me dava ali?"- até presidente da cooperativa e regedor: "Fui o último regedor".
Enquanto foi novo, habituou-se a conhecer os Ginetes como uma freguesia agrícola. "A emigração levou muita gente. Temos mais de mil e tal pessoas dos Ginetes no Brasil, no Canadá e na América". A emigração levou consigo muitos braços para trabalhar o campo.
"E depois, veio a União Europeia, esqueceram-se todos da agricultura. O meu amigo conhece esta quadra? "Em Janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar põe-te a chorar, se vires torrejar põe-te a cantar". Esta freguesia era assim...agora não, a agricultura desapareceu, só há pecuária e quem está sem trabalho prefere o rendimento mínimo".
Manuel "da Maia", um dos últimos que cultiva o campo, vê com desgosto este ciclo vicioso: "O povo viciou-se nos subsídios e no rendimento mínimo. Eu cá sou um homem feliz, não sinto a crise e não preciso do governo para nada. Tenho a reforma e continuo plantando três alqueires de batata, um alqueire e meio de batata doce, feijão, banana..."
Por detrás de muitas das casas dos Ginetes existem quintais: "Dantes eram todos trabalhados. Hoje preferem criar um bezerro para receber o subsídio..."

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