sexta-feira, 15 de junho de 2012

EM CASA DE ANA FONTES

Foi especial a visita a casa da artesã e poeta popular Ana Fontes, que vive num local ermo da freguesia de Santa Bárbara. Tal como em muitas outras situações na Ilha de Santa Maria, foi o professor José Melo, meu cicerone e amigo na ilha, que me levou lá. Ana, 80 anos, vive isolada do mundo e no seu mundo, numa pequena casa recheada de imagens, peças de artesanato, peças surrealistas, montagens e colagens feitas com as fotos dos seus entes queridos, mortos e vivos. A pobreza impediu-a de estudar mais do que a antiga terceira classe e isso parece tê-la marcado para sempre. Para fazer os exames da terceira classe, na época, eram necessários 62 escudos para o requerimento oficial e os pais não tinham. «Isto é um assunto doloroso de suportar e de registar mas eu sou obrigada a fazê-lo», escreveu num dos 20 livros manuscritos onde guarda milhares de quadras. O cenário de pobreza numa família numerosa e numa zona onde a electricidade chegou em 1991, moldou a sua vida. Sofrendo de insónias, Ana Fontes, costureira de profissão, passou a usar o dedal e a agulha e a caneta. «Tudo resolvo e faço nas horas nocturnas quando as crises mais dolorosas me permitem», escreveu. A obra popular de Ana Fontes foge aos cânones habituais e a sua excentricidade e mesmo morbidez- coloca, por exemplo, imagens de entes queridos «dormindo» nos caixões nas colagens emolduradas - causa estranheza. Ana responde em quadras: «Não te rias de quem sofre/ Da minha vida não faças antena/ Lê medita e põe no cofre/ E não sofras a mesma pena”. E ainda: “Eu sou tudo o que não presta/ Para quem com o mal me ofende/ mas do bom ainda me resta para quem me compreende». Na introdução ao livro de quadras sobre o linho «A Voz do Linho», editado pelo Centro Regional de Artesanato, o padre Jacinto Monteiro classifica a «Aninhas de Fontes» de «epifenómeno» cuja «imaginação frenética cria fantasmas e vê fantasmas». Ana não dorme com «a linguagem grosseira dos cães ou o cântico matutino de neuróticos galos». Para aliviar o sofrimento começou muito cedo a criar peças com material reciclado, algumas que podem ser confundidas com mero retrato da vida rural de outrora, outras surrealistas macacos com cauda de peixe ou bailarinas com cabeças de burro. Se Ana Fontes retrata em pormenor os ofícios e a vida quotidiana da freguesia há 60 anos da matança do porco e desfolhada ao namoro junto à fonte, fá-lo marcada pela vivência pessoal. Cada peça tem uma história. «Eu vivi isto tudo», explica e em cada peça feita com o mais diverso do material, aponta o nome de quem lá está. Num assomo macabro, encena o seu próprio enterro numa das peças mais insólitas. À entrada de casa, Ana criou uma árvore genealógica «da vida e da morte» onde cada casal da família surge numa casa à janela, os que morreram e os que ainda vivem, com as respectivas datas de nascimento por debaixo da foto de cada um. Tudo começou naquela casa, após o seu casamento e quando já não costurava para fora. «A casa tinha pouco recheio. Foi uma forma de dar brilho à casa. Só comprava arames e colas, tudo o resto foi feito com roupas que vinham da América, flores de cebola, garrafas, latas, ferro, material que dava à costa…» Hoje, Ana vive inconformada com o desinteresse público e oficial pelo espólio. Já tem oferecido peças e pergunta se queremos alguma. «Já cá vieram antropólogos, veio um artesão brasileiro mas ninguém pega nisto. Eu tenho amor a isto, é a minha família, gostava que alguém ficasse com ela».

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