domingo, 11 de novembro de 2012

EM CASA DE MANUEL CANARINHO, MESTRE DA CHAMARRITA, NAS PONTAS NEGRAS

pico 85 "Entre", diz Manuel Canarinho, quando me ouve aproximar da porta aberta. Está na sala a jantar com a esposa. Dele diz o insuspeito e conhecedor Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico: "O Manuel é o herdeiro dos cantadores extraordinários que a ilha tinha. Além de grande executante (rabeca, viola da terra, bandolim, violão) é o verdadeiro cantador da chamarrita. A voz dele é metálica, aguda, seca, gritada, quase marroquina". É esse exímio cantador e tocador de chamarrita do Pico que eu encontro agora na sua casa das Pontas Negras, um homem criado entre o campo e a música tradicional. "O meu pai tocava, a minha mãe também, enfim, isto da música já vem dos meus antepassados." Manuel é de um tempo em que não havia nem rádio nem televisão. "O primeiro rádio na Ponta Negra apareceu quando eu tinha 10 anos. Eu só ouvia a música tocada pelos meus pais. O meu pai tinha um pequeno acordeão. Era um som alegre e era convidado para tocar no carnaval. Já a minha mãe tocava guitarra portuguesa". De todos os intrumentos que foi aprendendo a tocar, Manuel Canarinho afeiçou-se pela rabeca: Aprendi a tocar o violino sózinho, de ouvir nos bailes de chamarrita. Adoro violino porque suaviza a música, alisa-a, é como se fosse a lixa..." A introdução de bandas, conjuntos, relegou os bailes de dança e a chamarrita quase para a extinção. " A chamarrita era uma coisa dos antigos", afirma Manuel Canarinho que aponta o documentário sobre a mesma realizado por Tiago Pereira como uma das razões para o ressurgimento actual: "Fazia-se um ou dois bailes por ano de chamarritas aqui na zona das Lajes do Pico e agora é quase todos os fins de semana". A chamarrita já é dançada em bares e discotecas da ilha. Apesar de tudo, Manuel Canarinho gostava que os jovens do Pico ganhassem a mesma paixão e orgulho que viu no Canadá junto dos jovens emigrantes. "Eu acho que tem a ver com a saudade, eles cantam e tocam com uma alegria e presença em palco muito boa. E eu acho também que daqui a 50 a 100 anos será nas nossas comunidades que as tradições se vão manter. É a saudade..."

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