VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
MANADAS-TERREIROS-URZELINA
Ao fim de deambular pelo casario estreito de Manadas, fui ter à Igreja de Santa Bárbara e ao porto, onde muita laranja e vinho dali saíram para o exterior. A fachada não permite antever a riqueza barroca do interior do templo que serviu de aconchego durante a crise sísmica de 1964, quando se rezava dia e noite pelo fim do pesadelo. A partir dali, encontrei a costa recortada em patamares de rocha vulcânica, sobretudo a partir do porto de Terreiros e até à Urzelina.
MANADAS LÁ EM BAIXO
DA CALHETA ÀS VELAS POR ESTRADA
Um dos maiores prazeres desta caminhada é ir caminhando ao lado do Pico e ir assistindo às suas metamorfoses durante um par de horas porque as nuvens nunca dão tréguas e vão mexendo na paisagem, ora sombreando ora abrindo uma clareira de luz quanto mais não seja para saudar a passagem do barco Inter-Ilhas.
Um fenómeno engraçado e simpático na caminhada junto à estrada é o número de automobilistas que para a perguntar se quero boleia.
NA OFICINA DE RAIMUNDO LEONARDES, NO TOPO
terça-feira, 28 de agosto de 2012
COM OS BALEEIROS DO TOPO
Porto do Topo, Ilha de São Jorge. Um fim de tarde benigno permite a um grupo de homens jovens saír para o mar da ponta leste da ilha com o São José, um bote baleeiro que é uma réplica de um antigo que acabou soterrado ali perto. A Associação Cachalote, associação de defesa do património do Topo, restaurou-o e pretende agora criar na freguesia uma núcleo museológico.
O bote São José evolui ao sabor das ondas do fim da ilha, o ilhéu do Topo ao fundo. Os homens saem com ele para praticar, como desporto e se prepararem para regatas de botes baleeiros. Lá em cima, sentados no muro do porto, estão dois dos oito ex-baleeiros do Topo ainda vivos. Assistem às manobras de longe e indicam onde tudo se passava no seu tempo.
“Ali ao fundo eram as caldeiras onde se derretia o óleo. Onde está agora o bar”, afirma Augusto Correia, 82 anos, “Depois o tanque onde se guardava tudo era lá em cima, não me pergunte porquê. Acartavamos bidons de 200 litros cheios de óleo até lá acima, à espera que viesse o barco buscar. Eram vários, o “Furnas”, o “Girão”. Quando chegavam, tínhamos de carregar tudo para baixo outra vez”.
A baleação no Topo acabou em 1965. “Chegaram a ser arreados três botes aqui no porto do Topo”, conta Eduardo Borba, outro ex-baleeiro. “Por fim havia só um, o Maria Deolinda. Eu arreei com 16 anos, a fugir ao cabo do mar. Íamos para o mar do Pico, para o norte da Terceira, para onde elas andavam”.

O Topo era então uma freguesia muito pobre. A caça à baleia atraía todo o tipo de pessoas e o que se ganhava vinha ajudar a sobreviver. “Ninguém trabalhava só na baleação. Vínhamos para aqui às 8h00 da manhã todos os dias para que se houvesse baleia saíssemos depressa. Se não aparecia baleia, cada um ía à sua vida, uns íam amanhar a terra, outros trabalhar de carpinteiros”, conta Borba.
O pai de Augusto Correia, por exemplo, era oleiro,um oleiro micaelense que um dia assentou arraiais no Topo. “Era de Vila Franca do Campo. Um primo dele arreou à baleia. Tinha onze filhos. Para sustentar famílias dessas era preciso trabalhar em tudo o que aparecesse. Muitas das famílias do Topo viviam da baleia”.
A mercearia fiava às famílias dos baleeiros. “Só se pagava quando se recebia. Em dois anos, ganhei três mil escudos. A minha mãe foi à loja pagar. Quando regressou a casa, vinha toda contente com uma nota de mil escudos na mão, daquelas da Dona Maria e um quilo de açúcar. Até os olhos brilhavam: “A vossa mãe pagou tudo o que estava a dever e o senhor ainda me ofereceu um quilo de açúcar”. Respondi-lhe eu: “Mãe, esse quilo está pago há muito”.
Como outros baleeiros noutras ilhas, Augusto e Eduardo ganhavam muito pouco. Balearam em novos e acabaram por ir trabalhar noutras actividades mais lucrativas e mais seguras. “Fui para o mar pescar,andei seis ano na pesca da albacora (atum), andei a construir casas e a caiar,sachei muito milho”.
Actualmente, fala-se muito em criar um núcleo museológico sobre a baleação no Topo e Augusto Correia só quer ouvir falar na construção do núcleo ali. “Ora se a baleação era aqui, é aqui que o museu deve ficar. Já fui a uma reunião onde se falava em construir o núcleo numa freguesia do norte da ilha onde nunca se caçou a baleia. Não contem comigo para maisreuniões…”
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
NO TOPO
BAILE NA SOCIEDADE DE SANTO ANTÃO
GARRAIADA
Regressei a Santo Antão para assistir ao baile regional na Sociedade Recreativa mas acabei a assistir ao final de uma garraiada em pleno campo. Era domingo de Agosto, muitos populares empoleirados nos muros em pedra, muitos "americanos" e boa disposição em redor de uma venda onde circulavam quase sempre minis de cerveja.

SANTO ANTÃO
Passo uma fábrica de fumeiro fechada e abandonada e uma grande fábrica de queijos em actividade até chegar a Santo Antão onde espreito nas vidraças da Sociedade Recreativa e descubro que daí a uns dias vão ali realizar uma baile regional. Aponto num papel porque é algo que eu quero assistir há muito.
SÃO TOMÉ
Envolto em nevoeiro, São Tomé é um lugar quase fantasma quando lá passo vindo da Fajã de São João. Naquela zona, passam de vez em quando os tractores. Animais, vacas, cavalos assomam na neblina. Uma ou outra voz ecoa ao longe, nos campos cobertos pela névoa ou de dentro de uma ou outra casa. Em recolhimento, sob o manto fantasmagórico e húmido do nevoeiro, a ilha parece mais ilha.
FAJÃ DE SÃO JOÃO-SÃO TOMÉ
No calor e humidade do dia anterior, a subida em ziguezague da Fajã de São João até São Tomé teria sido insuportável. Com chuva moderada e neblina, acabou por ser agradável. Ainda parei no único café da fajã. O dono impeliu-me a ir pela estrada, a dona queria que eu explorasse um pouco mais a costa. Decidi-me a avançar encosta acima e a lançar miradas sobre a fajã, o canal e o Pico, sempre o Pico.
FAJÃ DE SÃO JOÃO SOB CHUVA E NEVOEIRO
Sob o nevoeiro, o mundo já de si exíguo e fechado sobre si de uma fajã encolhe-se ainda mais. Rumo ao cais da Fajã de São João onde um homem grande, boné, botas de pescar, estende os ombros largos para pescar à linha. Dois outros homens saem rápidamente de um carro para inspeccionar umas obras. Dão uma mirada ao cimento do cais. Eu estou ali pelas ondas bravias do mar e por todo aquele verde, eles estão ali pelo cimento. Dizem qualquer coisa a um jovem que trabalha silenciosamente um muro em pedra e voltam ao abrigo do carro, ladeira acima.
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