domingo, 13 de janeiro de 2013

ATÉ CEDROS

faial 42 Existiam e existem quase 40 moinhos de vento inventariados no Faial. Na Espalamaca, junto à cidade da Horta, haveria de encontrar um recuperado, pintadinho a vermelho. Este apareceu-me à entrada de Cedros. faial 41 Igreja da Nossa Senhora de Fátima, na Ribeira Funda

NA COSTA NORTE DO FAIAL

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PRAIA DO NORTE, TERRA VULCÂNICA

faial 35 faial 37 Esta foi uma das freguesias bastante afectadas pela erupção dos Capelinhos. A Igreja, por exemplo, foi construída no início dos anos 60 do século passado uma vez que a capela ficou destruída durante a crise vulcânica. Paro num chafariz onde se lê que a 12 de Maio de 1958, enquanto o vulcão dos Capelinhos se mantinha em actividade, ao anoitecer a terra começou a tremer com mais intensidade, levando o povo da Praia do Norte a abandonar as suas casas e a reunir-se ali. "Reuniram-se junto deste chafariz e foi-lhes dada a absolvição geral pelo padre Henrique Pinheiro Escobar". A população foi acolhida pelo povo das freguesias de Cedros, Salão e Ribeirinha. Nessa noite a freguesia ficaria completamente destruída. chafariz A zona já fora desvastada em 1672 por uma erupção no Cabeço do Fogo que sorretara de lava parte das freguesias do Capelo e Praia do Norte e provocara a emigração de gente da zona para o Brasil. As regiões brasileiras de acolhimento foram sobretudo o Pará e o Maranhão, a norte e Santa Catarina, a sul.

ATÉ PRAIA DO NORTE

faial 36 Uma tira de novo asfalto entre o arvoredo e em breve estarei na Praia do Norte

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

NO CAFÉ FIM DO MUNDO

Faial 30 Faial 31 Os homens estão a trabalhar a estrada que atravessa a pequena localidade de Norte Pequeno, vizinha do Vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial. Nesta época do ano, com a única e pequena estrada que une Norte Pequeno ao mundo ou revolta em terra ou a receber um tapete de novíssimo alcatrão, Domingos não espera que ninguém lhe bata à porta. Eu próprio hesitei, convencido de que o Bar Fim do Mundo, ali perdido numa das áreas menos batidas da ilha, estava fechado. Tive o impulso de abrir a porta porque sempre gostei de fins do mundo e aquele pareceu-me o nome ideal para um bar num lugar daqueles. De um lado, o lado direito, uma pequena mercearia de aldeia ou freguesia, como se diz nos Açores. Do outro um pequeno mas acolhedor recanto recheado de mapas do mundo inteiro e decorado com bandeiras de Portugal, dos Estados Unidos e não só no tecto. Fiz ali no Bar Fim do Mundo e com Domingos André, 60 anos, quase a mesma coisa que faço em todo o lado. Pousei a mochila, pedi uma água e naquele caso em concreto, elogiei o espaço. Descobri que Domingos, um homem que nasceu ali mas adora viajar, gosta tanto de conversar quanto eu. Começámos por falar da erupção. “Eu tinha 7 anos e acabei por ir para a América com os meus pais. Vivi na área de Boston entre 1959 e 1989. Lembro-me de algumas coisas da erupção. Tenho flashbacks do que se passou. Esta zona aqui foi mais atingida pelas cinzas enquanto a Praia do Norte sofreu mais com os sismos”. Em 1988 Domingos decidiu regressar, comprar a velha mercearia local e fixar-se no lugar onde nasceu. “Chamei-lhe Fim do Mundo porque está longe de tudo, fora dos roteiros e como leio a “National Geographic” há muitos anos e viajava muito, fui colocando aqui mapas”. Mapas que nos fazem saír do Norte Pequeno e lembrar a América. “A Flórida era um dos Estados que eu gostava mais de visitar, ía muito lá”. A conversa escapa depois da Flórida para um sem número de lugares distantes que ambos gostaríamos conhecer, passa pela música popular americana- “os meus favoritos sempre foram os Bee Gees, gosto muito de Everly Brothers, Righteous Brothers” e acaba na realidade actual do Norte Pequeno. “Nesta altura do ano e para mais com a estrada a ser arranjada não passa aqui ninguém”, explica Domingos, que ao vender uns artigos de mercearia e servir uns cafés ou umas bebidas está praticamente a prestar um serviço social à pequena comunidade. De repente, pega numa folha e pede-me para o ajudar a explicar o que ali está (muita da nossa conversa foi mantida em inglês). O papel explica que até 1 de Janeiro de 2013 Domingos vai ter de substituir a actual caixa registadora por duas novas. “É absurdo. Querem uma para a mercearia e outra para este pequeno balcão do bar. Dizem que custam dois mil euros. Não tenho clientes que justifiquem. “That’s it” (é isso), a partir de 1 de Janeiro fecho as portas. Não se justifica manter as portas abertas e fazer este investimento para servir meia dúzia de cafés”. Domingos mostra-me a actual caixa registadora. “Cada vez que vem um cliente, leva um talão mas a partir de agora não chega”. A esposa entra por momentos no bar onde a conversa já vai longa e onde um amigo também leu atentamente o papel. “Já sabes alguma coisa das registadoras?” Vai-se informar, diz a esposa. Uns quilómetros e umas quantas de bátegas de chuva mais à frente, discuto de novo o assunto com a dona de outro café: “É assim, é um convite a que muitos pequenos negócios fechem as portas”. Resta a Domingos, suponho, facturar menos de 100 mil euros por ano e conseguir prová-lo. faial 29 faial 34 faial 28

CENTRO INTERPRETATIVO

Enterrado no subsolo do vulcão dos Capelinhos, o Centro Interpretativo do Vulcão dos Capelinhos é um luxo de galerias e exposições sobre o fenómeno dos vulcões em geral e o dali em particular. Enquanto via um filme sobre vulcanismo em três dimensões dentro de um auditório climatizado escapava à fúria dos ventos à superfície. faial 24 faial 23 a

CAPELINHOS

OS Capelinhos num dia muito ventoso. Rajadas fortes de vento, chuva entretanto e mais tarde, lá em cima, uma nesga de sol que abre um panorama diferente sobre a enseada lá em baixo. faial 26 faial 27 faial 25

domingo, 30 de dezembro de 2012

NA CASA DAS MÁQUINAS DO FAROL DOS CAPELINHOS

faial 23 “Foi durante o furacão Nadine”, recorda Aires Filipe, 25 anos, a trabalhar ali mesmo junto ao Farol dos Capelinhos. “Estavamos aqui e demos com isto. Sabíamos que existia mas nunca tínhamos visto”. O temporal destapou a antiga chaminé da vestuta casa das máquinas do farol. “Destapou tudo e dá para ver como o farol funcionava antigamente. O senhor quer ver? Desça comigo, aos poucos habitua os olhos ao escuro”. capelinhos 2 Desço com Aires Filipe, um dos três funcionários que há cerca de um mês deram com a velha casa das máquinas. “Estavamos aqui a trabalhar e demos com isto. Comunicámos logo ao Parque mas eles dizem que tem de ser tudo bem avaliado porque há aqui uma viga que está em perigo”. Lá dentro, sem lanterna, é praticamente impossível perceber o que lá se encontra. A antiga entrada está ainda enterrada em cinzas vulcânicas. Só com a ajuda do flash da máquina e as descrições entretanto feitas por Aires Filipe vou entendendo onde se encontra o velho gerador ou as caldeiras. capelinhos 6 capelinhos 4 capelinhos 3 capelinhos 5 Não existem dúvidas, no entanto, que este material existente no subsolo do farol pode vir a enriquecer e de que maneira o moderno Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Este já foi nomeado para melhor Museu Europeu do Ano 2012 e está enterrado no solo vulcânico para o preservar, à cota original anterior à erupção. Distribui-se entre o antigo piso térreo do farol e as casas de apoio existentes quando da erupção de 1957. O moderno centro proporciona aos visitantes uma viagem interactiva que descreve o fenómeno geológico ocorrido nos Capelinhos no século passado e conta com a projecção de um filme que narra a história dos Açores. Numa sala, são oferecidas maquetas dinâmicas dos três tipos de actividade que ali ocorreram. Nas duas últimas salas da exposição permanente pode apreciar-se a “história e as paisagens geológicas” e entre outras mostras, amostras de rocha do vulcão. Com certeza, depois de recuperada, a antiga maquinaria que fazia funcionar o velho farol inaugurado em 1903 será uma mais valia quer para o Parque Natural do Faial como para o Centro Interpretativo. Para já, permanece no subsolo, à guarda dos três diligentes e simpáticos funcionários. capelinhos 8
Num dia particularmente ventoso e cinzento de Novembro, o vulcão dos Capelinhos é um deserto humano, com excepção de alguns trabalhadores que cuidam de arranjos no exterior e de um casal de estrangeiros que enfrenta a ventania como pode, tira umas fotos e regressa ao carro antes da chuva começar a caír. faial 19 faial 18 faial 20

OS CAPELINHOS ALI TÃO PERTO

O perfil do vulcão dos Capelinhos ergue-se ao longe e já se avista da estrada, um monumento ao poder telúrico que espreita por debaixo das ilhas como ameaça permanente. faial 16 A primeira vez que visitei a zona, em 1986, contavam-se de um e do outro lado da estrada as casas abandonadas. Hoje são muito poucas, existe no Capelo um centro de artesanato, há casas de turismo de habitação e sobretudo aquela obra monumental no subsolo do Farol chamada Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Faial 17

O UNIÃO VULCÃNICO JÁ NÃO JOGA AQUI

c vulcanico 3 c vulcanico 2 E de repente, ali bem perto dos Capelinhos, encontrei o surreal e muito vulcânico campo de futebol do Clube União Vulcânico, um clube de curta duração. Fundado em 1990, acabou em 2006. Junto a uma das balizas há marcas de rodados no solo negro onde se jogaram partidas das distritais. O nome do clube, esse, só por si, merecia receber um galardão. As instalações parecem abandonadas. Não há ninguém ali por perto a quem perguntar o que quer que seja. cvulcanico 1

sábado, 29 de dezembro de 2012

BALEIAS NO CAPELO

faial 15 Muitas vezes, junto à estrada, existem pequenos sinais que me chamam a atenção para realidades passadas. Ali bem perto, no Porto Do Comprido, partiu-se para a caça às baleias de 1884 até 1957, quando se deu a erupção do Vulcão dos Capelinhos. A antiga Casa dos Botes Baleeiros foi recentemente reabilitada e inaugurada. Francisco Medeiros, ex-Cabo do Mar do Cais do Pico, conta no blog "À Sombra do Vulcâo" que "até ao ano 1957, durante a Campanha de Verão, os baleeiros se alojavam em casas construídas em pedra cobertas de palha de trigo a que chamavam palhotas. Na rampa do porto varavam cerca de 20 botes baleeiros, pequenas embarcações de pesca e na sua pequena baia ancoravam 7 lanchas baleeiras a motor". Parte destas embarcações, pertenciam às Armações baleeiras Reunidas, do Cais do Pico, Ilha do Pico, que por falta de baleias no Canal Pico/S. Jorge , baleavam de parceria com as Armações do Faial que também para ali se deslocavam. "Na madrugada do dia 27 de Setembro de 1957", escreve ainda Francisco Medeiros, " com a terra balançando continuamente, os vigias de baleia do Costado da Nau, a escassos metros acima do Farol, notaram o oceano revolto a meia milha da costa, para os lados de oeste. Desceram dos Costado da Nau pela última vez, alertaram os faroleiros e os baleeiros estacionados no Porto do Comprido ali próximo. Tinha-se extinguido a maior Estação Baleeira do Arquipélago dos Açores. O mar entrava em ebulição e havia cheiros fétidos. O Vulcão dos Capelinhos tinha entrado em actividade".

AUGUSTO MACIEL, O HOMEM QUE TOCA BANDOLIM NA MISSA

faial 14 Encontrei Augusto Maciel na Ribeira do Cabo, extremidade sul da freguesia de Capelo. Augusto, 85 anos, só deixou a Ribeira do Cabo, ali a poucos quilómetros do Vulcão dos Capelinhos, um ano e porque foi obrigado. “Tivemos de ir para Castelo Branco mas logo que pude voltei. Eu estava danado para vir para cima. Ouvia aquilo a fazer pum, pum mas não me importava”. O senhor Augusto criou oito filhos na Ribeira do Cabo, hoje espalhados pela Ilha do Faial, pela costa leste e costa oeste dos Estados Unidos. “E todos aprenderam a tocar bandolim”, diz a sorrir o homem que aos 85 anos continua a animar as missas de fim de semana das Igrejas de Capelo e Norte Pequeno. O primeiro instrumento de Augusto Maciel não foi o bandolim. “O meu pai tocava viola da terra e eu tanto chateei o meu pai que ele mandou fazer uma viola a um senhor que vivia no Canto do Capelo. O meu pai levou-lhe um pau de castanho que tinha encontrado no Varadouro e foi com essa madeira que a viola foi feita”. Augusto escutava as chamarritas à noite enquanto se descascava o milho, depois chegava a casa e começava a tocar com o pai. “Tinha a viola em cima da cama. Chegava de trabalhar no campo, pegava nela e começava a tocar como via nas chamarritas e como vai o meu pai tocar. Dava a pancadinha na viola tal como via fazer o meu pai”. Naquele tempo não havia rádio. Trabalhava-se muito na terra e a distracção ao serão era a viola da terra. “Sachavamos milho, favas, batata, favas, feijão, matávamos dois porcos todos os anos. Trabalhavamos muito mas nunca nos faltou comida”. Da viola Augusto passou para o violão e mais tarde para o bandolim. “Ensinei os meus 8 filhos a tocar bandolim e quem aparecesse. Havia muita gente aqui antes da emigração para a América. Eu fazia ranchos com a minha família e amigos”. faial 11 Quem quisesse aprender a tocar, bastava aparecer na cozinha da casa de Augusto. “Eu não tinha coração de não deixar os outros entrarem. Tinhamos o forno a secar o milho e todos a aprender bandola e bandolim. Até fomos à Terceira com esse rancho que eu organizei”. Mais tarde, Augusto, sempre entusiasta da música tradicional na zona do Capelo, criou uma tuna que chegou a ir à famosa festa da “Semana do Mar” na Horta. “Entretanto, os meus filhos foram para a América e outros foram para fora da freguesia. Já não os consigo juntar mas ainda gostava de fazer uma brincadeira com filhos, netos e sobrinhos”. Sempre que pode, Augusto Maciel toca o bandolim na missa e está presente nas festas religiosas da freguesia do Capelo. Tem saudades, no entanto, do tempo em que se juntavam ao fim do dia no Império da Ribeira do Cabo. “Emigrou tudo…” faial 13 faial 12

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Em DIRECÇÃO AOS CAPELINHOS

faial 7 faial 8 faial 9 faial 10 Um avião espera pelos passageiros na pista de Castelo Branco. O céu cobre-se de nuvens no interior da ilha quando passo junto ao Império da Coroa Nova. Os Impérios bordejam a estrada. Mais tarde, numa esquina, segue-me o Império da Lombega. Em breve estarei no Varadouro

FRANCISCO GOULART, TOCADOR DE VIOLA DA TERRA, ALMANCES

Francisco Goulart Num pedaço de campo não muito longe do aeroporto do Faial, em Almances, freguesia de Castelo Branco, numa casa humilde e térrea, vive Francisco Goulart, um homem da lavoura que se deixou cativar pela viola da terra. "Toquei num clube aqui em Almances que já fechou e agora toco nas chamarritas, no grupo de folclore da Feteira. Vou sempre que me chamam. De resto, quando estou sózinho, toco para me entreter", conta Francisco, às voltas com um problema na vista que mal o deixa trabalhar. "Esta viola foi feita na freguesia de Pedro Miguel por um senhor Teixeira que em tempos as construía. É bem antiga. Fui aprendendo com outros e lá vou ajudar ao folclore, sempre em conjunto com outros. Quer que eu toque?" faial 2

HORTA-CASTELO BRANCO

faial 4 A Horta da marina, dos iates e do passado cosmopolita vai ficando para trás quando passo junto ao Império dos Operários, hoje sem coroa do Espírito Santo nem o azul nas molduras, na cornija e nos outros elementos decorativos. Império à parte, existe sempre algo de profundamente melancólico ao cruzarmos as portas de uma fábrica fechada. Imagina-se a vida, o bulício, o silvo a rasgar as horas e os ares a anunciar novo turno. faial 5 faial 6 As sombras do Pico e do Monte da Guia vão ficando para trás à medida que me aproximo da freguesia da Feteira.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

PORTO PIM

faial 3 Passo junto ao Forte e largo a Horta por Porto Pim e o seu casario humilde, a léguas do que a Família Dabney ou as empresas de cabos telegráficos construíram em outras zonas da cidade, a anos luz da Arte Déco" que invadiu a cidade pós terramoto de 1926. Ali era e é bairro de pescadores. Do outro lado da baía, no final da praia de Porto Pim, a fábrica das baleias, onde hoje está instalado o Centro do Mar/ Observatório do Mar dos Açores.

CHAMARRITAS NA HORTA

chamra Viciado em bailes de chamarritas no Pico, dia 11 de Novembro e a pretexto de um magusto no Mercado Municipal da Horta, acorri à actuação do Grupo de Chamarritas das Angústias. Ao som de música gravada, faltaram-me as violas da terra, o violino, os bandolins, os violões.