domingo, 10 de fevereiro de 2013

PERTO DA ROCHA DOS BORDÕES

Aqui, já depois de uma extenuante subida desde a Fajãzinha, a famosa Rocha dos Bordões aparece do lado esquerdo, vista do trilho. Flores 114 Flores 115

NA FAJÃZINHA

A Fajãzinha e o seu cenário idílico, verdejante e montanhoso como pano de fundo. Com pouco mais de 70 habitantes, o lugar tem vivido cíclicas inundações e problemas causados pela vizinha Ribeira Grande, que curiosamente não apresentava muita água quando a atravessei vindo da Fajã Grande. A Fajãzinha é sede do "Monchique", o jornal mais ocidental da Europa, obra de teimosia do bancário e empresário José António Corvelo, proprietário também do restaurante local "Pôr do Sol". Flores 102 Flores 103 Flores 105 Flores 106

ENTRE A FAJÃ GRANDE E A FAJÃZINHA

Ali perto, fica a aldeia turística da Cuada, uma aldeia antes abandonada, mais tarde recuperada e que ganha vida no Verão. Afastei-me do trilho para passar no Poço da Alagoinha. É tudo tão exuberante e belo que apetece deixar a natureza falar por si. Flores 100 Flores 140 Flores 101

PRAIA DA FAJÃ GRANDE

A "costa mais ocidental da Europa" e aquela que foi durante muito tempo usada pelos açorianos como a da emigração clandestina, zona remota do arquipélago mas que ao mesmo tempo servia de rota de navegação entre as Américas e o continente europeu. Muitos aproveitaram para emigrar em navios baleeiros. Ainda por ali está a Vigia da Baleia. Flores 98 Flores 99 Flores 139

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

POÇO DO BACALHAU

Enquanto caminho da Ponta da Fajã à Fajã Grande, vou observando as várias quedas de água que se desprendem da montanha. A mais acessível da estrada e impressionante, é a da ribeira das Casas que termina no Poço do Bacalhau Flores 95 Flores 97 Flores 96

EM CASA DO INVESTIGADOR MARÍTIMO JOÃO GOMES VIEIRA

João Gomes Vieira vem a descer a rua que desce da Igreja da Ponta da Fajã Grande em direcção a sua casa, envolto num cenário verdejante onde pontuam quedas de água que se despenham das alturas. “Venha meu amigo, vamos conversar”, diz João Gomes Vieira, à medida que nos vamos aproximando da casa que mantem na Ponta da Fajã Grande e onde tudo ali remete para o mar, os navios, as memórias de naufrágios, da baleação. Filho e neto de baleeiros, escritor, investigador, fundador do Museu das Flores, um homem profundamente ligado ao mar, vive ali numa zona palco de baleação, naufrágios e tragédias marítimas. Membro da Academia da Marinha, consultor do Museu da Baleia de New Bedford, João António Gomes Vieira recebeu no passado dia 10 de Junho, a insígnia de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. J G VIEIRA 1 Entro numa sala pejada de memórias marítimas. Do tecto em madeira desprendem-se alinhadas umas às outras dezenas de canecas. “Esta casa”, explica João Gomes Vieira, “é feita com madeira de salvados de navios. Estas portas aqui são do navio RMS Slavonia”. O RMS Slavonia, um enorme navio transatlântico pertencente à britânica Cunard Line viajava entre Nova Iorque e Trieste, na Itália quando, em Junho de 1909, alguns passageiros terão pedido ao comandante para ver as ilhas. Envolto em nevoeiro, o navio acabaria por naufragar perto da costa das Flores entre o Lajedo e a Costa do Lajedo. Os cerca de 600 passageiros salvaram-se graças à ajuda das tripulações de dois navios transatlânticos alemães e de muitos florentinos. O Slavonia levou meses a afundar e muitas peças do navio foram retiradas por locais. Aos poucos, João Gomes Vieira foi recolhendo, encaminhando para o Museu. Algumas, guarda naquela preciosa sala da Ponta da Fajã Grande. “Veja, esta papeleira de bordo também pertencia ao Slavonia”. JG VIERA 3 J G VIEIRA 2 Na sala, guarda também salvados de outros navios que naufragaram na zona. “São peças que estavam abandonadas nas casas da ilha e que eu fui guardando”. Uma, por exemplo, pertencia a um navio grego que naufragou em 1967 perto da Ponta da Fajã. Outra pertence à barca Bidart. “A Bidart vinha da Nova Caledónia carregada de minério de níquel com 110 dias de viagem em 1915 e encalhou perto da fajã Grande”. Nunca deixando a sua ilha mas viajando pelos Açores, pelo continente e pelos Estados Unidos, João Gomes Vieira dedicou uma grande parte do seu tempo à investigação da história e da vida marítima. Na série de sete livros “O Homem e o Mar”, o investigador florentino escreve sobre a cultura marítima açoriana. Das embarcações dos Açores do início do povoamento à inventariação do património marítimo, das histórias dos lobos do mar açorianos à baleação, cabotagem, construção naval em madeira, Vieira investiga tudo. Entre as suas recolhas, encontra-se um glossário baleeiro recolhido nas Flores e inúmeras fotos, muitas de particulares, outras dos Arquivos Públicos dos Açores. Filho e neto de baleeiros, João Gomes Vieira gosta de dizer que “o mar é e melhor escola de formação de um homem. “A minha família veio para aqui há sete gerações”, conta, enquanto caminhamos na Ponta da Fajã, “viemos do Alentejo, de Viana do Alentejo a mando do Rei D. Manuel I”. O bisavô de João Vieira Gomes foi um dos florentinos que embarcaram nos navios baleeiros que paravam nas Flores para abastecer. “Embarcou aos 17 anos, atravessou o Cabo Horn, o Alaska, esteve em São Francisco. Voltou mais tarde para a ilha, investiu em terrenos, ganhou dinheiro, morreu em 1907”. Na família, muitos foram para os Estados Unidos como baleeiros, primos, tios. O pai de João Vieira Gomes foi o último dessa enorme rede de oficiais baleeiros na família. “O meu pai apesar de oficial baleeiro sabia que a luta no mar era muito desigual e nunca quis que fossemos para a baleação. Não contava as suas proezas. Só muito mais tarde, no final da vida me foi contando…” Embora a sua profissão fosse em terra, Vieira Gomes sonhava com o mar. “Aproveitava cada viagem em trabalho para trazer peças para o museu. Fui muitas vezes no Transal (o avião da missão francesa nas Flores) a Santa Maria e a Lisboa e vinha carregado de cartas de navegação, livros…Enfim, desde rapazinho que guardei bússolas, binóculos. Uma paixão”. Flores 92 Flores 94

A FAJÃ ONDE FOI PROIBIDO VIVER

A Ponta da Fajã é um lugar idílico mas considerado perigoso desde que a 19 de Dezembro de 1987 uma derrocada destruiu uma casa, uma capela e uma garagem. Os 50 habitantes foram obrigados a deixar o lugar mas aos poucos os mais teimosos e que ali sempre viveram, regressaram, um regresso que tem algumas semelhanças com o que aconteceu em São Jorge na Fajã da Caldeira de Santo Cristo ( ali a fajã foi evacuada quando do sismo de 1980 mas os habitantes voltaram). Sentado à porta de casa, pouco depois da Igreja, encontrei Manuel da Ponte. “Não gosto da Fajã Grande, toda a vida aqui vivi e é aqui que eu gosto de estar. Era uma vida difícil. Essa montanha estava cheia de arames para trazer lenha e ração para o gado em cestos. Cultivávamos a terra toda. Agora estou cá eu e mais meia dúzia”. Não tem medo? “Não, as “quebradas” não atingem esta zona, a maioria das casas não estão em perigo. Só uma ou duas que estão abandonadas é que estão mais perto da encosta. Ali à frente vê-se uma “quebrada”. Foi há pouco tempo e não atingiu nada nem ninguém”. Flores 87 Flores 88 Flores 91 Flores 90 Flores 89

NA PONTA DA FAJÃ GRANDE

A travessia levou-me a um patamar onde temos o mar lá embaixo, a rocha do lado esquerdo e uma fatia de caminho atapetado a verde com vista para a Ponta da Fajã Grande. O sol já estava a esmaecer quando lá cheguei. Nesta altura do ano, são poucos os habitantes do lugar, uma ponta de terra que cai abruptamente sobre o mar, cercada por montanha verde de onde caem uma, duas, três, quatro quedas de água, a última das quais é a mais conhecida, o Poço do Bacalhau. No meio do cenário, a Igreja branca da Nossa Senhora do Carmo. Flores 84 Flores 85 Flores 86

DERROCADA NO TRILHO PERTO DA PONTA DOS FANAIS E ILHÉU DE MONCHIQUE

Avistei primeiro o Ilhéu de Monchique. A seguir, vi lá ao fundo espetada até às rochas abrutas que se erguem em frente ao mar, a Ponta da Fajã. Foi pouco depois que o trilho desapareceu engolido por uma derrocada. A rocha quebrou lá no alto e uma torrente de lama, pedra e água cobriu o que dantes era o trilho entre Ponta Delgada e a Fajã Grande. Fui saltando de obstáculo em obstáculo, enterrando as botas na lama, saltando de pedra em pedra, procurando escorregar o mais possível. Quando consegui ultrapassar a primeira frente de derrocada ou “quebrada”, não via o trilho. Tive de atravessar um mar de conteiras, saltar uma árvore derrubada para descobrir uma nova frente de derrocada que me fez lembrar os corta-fogos do continente. Ainda pensei na hipótese de descer por ali até junto ao mar mas acabei por recuperar o trilho uns saltos entre pedras e mato mais à frente. Flores 82 Flores 81 Flores 83

POR CIMA DA QUEBRADA NOVA, COM VISTA PARA O ILHÉU DE MARIA VAZ

Flores 77 A determinada altura, o trilho chega junto à falésia. A vista é soberba sobre a Quebrada Nova, por baixo, o Ilhéu De Maria Vaz, a Ponta do Albarnaz e o Corvo ao fundo, do lado direito. Valeu a pena atravessar ribeiras, lama, pedras escorregadias para ali chegar. Aquela zona da costa, uma das mais difíceis das Flores, já foi palco de muita emigração clandestina e de recolha de sargaço. No seu livro "Ilha das Flores-Roteiro Histórico e Pedestre", Pierluigi Bragaglia descreve como é possível com algum grau de dificuldade atingir a Fajã da Quebrada Nova pelo litoral desde a Ponta do Albarnaz. Flores 76 Flores 80

NO TRILHO PONTA DO ALBARNAZ-FAJÃ GRANDE

Já deixara para trás o Corvo e o Farol da Ponta do Albarnaz. Por diversas vezes, no início do trilho pensei em voltar para trás e fazê-lo com galochas no dia seguinte. Nesta altura do ano e apesar do repentino bom tempo que abençoou a Ilha das Flores no fim do mês de Novembro de 2012, os trilhos estão repletos de lama, água e pedra escorregadia. Flores 72 Flores 71 As vacas encarregam-se em determinadas zonas de tornar os trilhos praticamente intransitáveis. Outras vezes, são árvores, quase sempre cedros do mato que caíram na última intempérie e cortam os caminhos. Outras vezes ainda, é a água das ribeiras que transborda e obriga a atravessar a corrente de água ou pedra entre pedra ou com as botas dentro de águas. Exceptuando esses pormenores mais difíceis de uma caminhada nas Flores no Inverno, tudo é resto é deslumbrante. Os coelhos atravessam-se repentinamente à nossa frente. Numa clareira são três vacas que me esperam assustadas e fogem justamente para o trilho, entre ramadas de cedro do mato. O som da água das ribeiras a despenharem-se para o mar, o chilrear dos pássaros e o rumor das ondas lá em baixo acompanha a caminhada num oceano verdejante de pastos, amontoados de cedro e a Vigia da Rocha Negra ao fundo. Flores 75 Flores 73 Flores 79 Flores 78

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PONTA DO ALBARNAZ

O mundo parou ali, na Ponta do Albarnaz, um farol afundado em pastagens, sobranceiro às ravinas e ao canal entre as Flores e o Corvo. Flores 68 Flores 67 Flores 69 Flores 70

A CAMINHO DA PONTA DO ALBARNAZ

Entre Ponta Delgada e a Ponta do Albarnaz, na extremidade noroeste da Ilha das Flores Flores 62 Flores 64 Flores 65 Flores 63 Flores 66

LUÍS ALVES, DIÁCONO E DINAMIZADOR DE PONTA DELGADA

Diacono Luís Alves, professor na reforma, diácono, ex-presidente da junta de freguesia e ex-presidente da Câmara de Santa Cruz das Flores, tocador e cantador, vive ali em Ponta Delgada, uma autêntica varanda aplainada e verde sobre a Ilha do Corvo. Apesar de ter nascido numa das mais isoladas e pobres freguesias da Ilha das Flores, nunca se resignou ao destino de grande pobreza. “Ui, eramos muito pobres”, recorda Luís, que conheceu a electricidade com 19 anos graças à instalação na zona dos radares franceses.“Havia uma família em Ponta Delgada que inclusivamente vivia numa furna”. Em casa de Luís Alves viviam do que o pai, agricultor que trabalhava em terras de outros, ganhava. Tínhamos um porco, plantávamos batata doce, batata branca, milho, feijão, couves…A nossa ceia era sopas de leite com pão de milho e papas grossas de leite”. Não tinham pão de trigo. “De vez em quando alguém mais rico dava-nos um bocado. Para ter farinha, levávamos a “moenda” (o milho secado) até a um moinho de água que aqui havia”. Ainda em casa, faziam manteiga e nata para vender. “Não existia numerário naquele tempo. A nata e a manteiga era entregue ao senhor da loja (mercearia) que a vendia à fábrica de leite e trocavamo-las por géneros”. Para conseguir ganhar algum dinheiro, íam apanhar sargaço. “Apanhávamos no Sítio do Vento, aqui na freguesia, 202 degraus para baixo e 202 para cima. O meu pai vendia ao quilo. O melhor sargaço era o que vinha enxurrado, batido. Escolhíamos o melhor e sempre dava para suportar a casa”. Foi com o dinheiro que ganhou no sargaço que Luís Alves teimou em estudar. “Comecei por estudar sozinho porque não tinha estrada para ir até Santa Cruz. Depois ía até Santa Cruz e fazia três anos de cada vez. Fui ter com um senhor dos Correios e com um senhor metereologista que me ensinaram Física e Matemática. A professora primária (ensino básico) que vinha aí é que me ensinou o inglês e o francês. Fui fazendo assim, candidatando-me como aluno externo, primeiro nas Flores e depois no Faial”. A chegada dos franceses e da sua base de radares para escrutinizar os mísseis que atravessavam o Atlântico mexeu com a pequena freguesia rural de Ponta Delgada. “Tivemos electricidade em 1969, mais cedo do que noutras zonas da ilha. Muita gente trabalhou nas obras de instalação de valas e electricidade e a população beneficiou do apoio médico dado pelos franceses”. Foram os franceses que construiram a estrada que hoje liga Ponta Delgada a Santa Cruz. Durante a primeira metade do século XX, os locais ou iam a pá ou apanhavam boleia da "lancha da nata", que transportava a nata para a vila. Na época em que os franceses se instalaram em Santa Cruz das Flores já Luís Alves cantava e tocava. “Eu, a minha esposa e o meu pai tocávamos e cantávamos música regional para os franceses, no Hotel que eles tinham em Santa Cruz. Normalmente, íamos lá quando chegava o avião de abastecimento deles, o Transal. Eu tocava viola ritmo, o meu pai tocava viola e a minha esposa cantava em dueto comigo”. Os militares franceses íam buscá-los e levá-los. “Não tínhamos carro. Tive o meu primeiro carro em 1985”. Além de professor, autarca e diácono, Luís Alves foi jogador de futebol, dirigente desportivo, director da Casa do Povo local e ainda do Grupo de Folclore da Casa do Povo da Ponta Delgada das Flores. Ainda hoje, o reportório deste último, tem por base as recolhas feitas por Luís Alves. Flores 60 Flores 61 “Andei pela freguesia a fazer recolha de temas juntos dos mais velhos”, conta. “Alguns foram trazidos de fora da ilha, como o “Vira”. No fim do século XIX, esteve a construir aqui o Farol da Ponta de Albarnaz um tal de João Figueiredo, conhecido como o João “Algarvio”. A minha avó dizia que tinha deixado algumas músicas e o “vira” era uma delas”. Foi com essas músicas recolhidas em Ponta Delgada que Luís Alves partiu para os arranjos coreográficos do grupo de folclore. “Notam-se diferenças em relação a outros reportórios porque vivíamos muito isolados mas eu acho que é a diferença de ilha para ilha e de freguesia para freguesia que faz a riqueza do folclore”. Luís Alves envolveu-se em práticamente tudo o que era a vida quotidiana e especialmente cultural de Ponta Delgada. “Fomos os primeiros a apresentar marchas de São João com letras e música minhas, celebravamosas Rondas dos Reis, a Passagem do Ano e o no Carnaval organizávamos danças de arco e espada, com um mestre e um contra-mestre vestidos à militar”. Entre 1980 e 2000, organizou uma tuna com violões, viola da terra, bandolins e violino e mantem um grupo, o “Vozes do Norte”, com mais cinco elementos. Catequista durante 35 anos e membro do coro da Igreja de Ponta Delgada, Luís Alves cursou teologia durante cinco anos e é actualmente um dos três diáconos dos Açores. “Só não posso consagrar a hóstia nem perdoar os pecados uma vez que sou casado. Meu Deus, eu às vezes não acredito na quantidade de coisas que faço ou já fiz”. Flores 58