VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
De repente, cumprida uma curva, só ali estou eu e o cavalo. Os automobilistas espreitam por detrás das vidraças dos respectivos automóveis. Uma luz ténue rompe de vez em quando por entre as nuvens que encobrem a Horta sorumbática de Novembro. Por instantes, as águas de estanho iluminam-se até ao Monte da Guia. Apetece ficar ali, entre o vento que espicaça o canavial, as ervas da Espalamaca, a visão livre do canal, as costas para o asfalto. Um barco risca as águas paradas e cinzentas com um círculo que se desfaz em pequena ondulação daí a pouco.
Na estrada principal, já se sente a proximidade em relação à Horta. Como gosto pouco de trânsito, volto a descer por uma estrada secundária, desta vez em direccção ao mar e à Praia de Almoxarife, entalada entre duas lombas. Ao fim da descida da primeira lomba, uma marca, mais uma, da emigração: A Rua New Bedford. Mais à frente, numa praia que em Novembro está praticamente vazia, descubro uma velha posição militar dos tempos da IIª Guerra Mundial, quando aliados e nazis jogavam ao gato e ao rato em águas dos Açores
As ondas vagueiam de cá para lá lambendo o areal de cinza sem pressas. À frente, o Pico esconde-se mais uma vez debaixo de um toalhão de nuvens. O background de Almoxarife, o vale, é pastoril, bucólico. Chuviscos marcam a minha retirada pelo lado oposto, à conquista da Lomba da Espalamaca e de poder avistar finalmente a cidade da Horta do outro lado.
Esta foi uma das freguesias bastante afectadas pela erupção dos Capelinhos. A Igreja, por exemplo, foi construída no início dos anos 60 do século passado uma vez que a capela ficou destruída durante a crise vulcânica.
Paro num chafariz onde se lê que a 12 de Maio de 1958, enquanto o vulcão dos Capelinhos se mantinha em actividade, ao anoitecer a terra começou a tremer com mais intensidade, levando o povo da Praia do Norte a abandonar as suas casas e a reunir-se ali. "Reuniram-se junto deste chafariz e foi-lhes dada a absolvição geral pelo padre Henrique Pinheiro Escobar". A população foi acolhida pelo povo das freguesias de Cedros, Salão e Ribeirinha. Nessa noite a freguesia ficaria completamente destruída.
A zona já fora desvastada em 1672 por uma erupção no Cabeço do Fogo que sorretara de lava parte das freguesias do Capelo e Praia do Norte e provocara a emigração de gente da zona para o Brasil. As regiões brasileiras de acolhimento foram sobretudo o Pará e o Maranhão, a norte e Santa Catarina, a sul.
Os homens estão a trabalhar a estrada que atravessa a pequena localidade de Norte Pequeno, vizinha do Vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial. Nesta época do ano, com a única e pequena estrada que une Norte Pequeno ao mundo ou revolta em terra ou a receber um tapete de novíssimo alcatrão, Domingos não espera que ninguém lhe bata à porta. Eu próprio hesitei, convencido de que o Bar Fim do Mundo, ali perdido numa das áreas menos batidas da ilha, estava fechado. Tive o impulso de abrir a porta porque sempre gostei de fins do mundo e aquele pareceu-me o nome ideal para um bar num lugar daqueles.
De um lado, o lado direito, uma pequena mercearia de aldeia ou freguesia, como se diz nos Açores. Do outro um pequeno mas acolhedor recanto recheado de mapas do mundo inteiro e decorado com bandeiras de Portugal, dos Estados Unidos e não só no tecto.
Fiz ali no Bar Fim do Mundo e com Domingos André, 60 anos, quase a mesma coisa que faço em todo o lado. Pousei a mochila, pedi uma água e naquele caso em concreto, elogiei o espaço. Descobri que Domingos, um homem que nasceu ali mas adora viajar, gosta tanto de conversar quanto eu. Começámos por falar da erupção. “Eu tinha 7 anos e acabei por ir para a América com os meus pais. Vivi na área de Boston entre 1959 e 1989. Lembro-me de algumas coisas da erupção. Tenho flashbacks do que se passou. Esta zona aqui foi mais atingida pelas cinzas enquanto a Praia do Norte sofreu mais com os sismos”.
Em 1988 Domingos decidiu regressar, comprar a velha mercearia local e fixar-se no lugar onde nasceu. “Chamei-lhe Fim do Mundo porque está longe de tudo, fora dos roteiros e como leio a “National Geographic” há muitos anos e viajava muito, fui colocando aqui mapas”. Mapas que nos fazem saír do Norte Pequeno e lembrar a América. “A Flórida era um dos Estados que eu gostava mais de visitar, ía muito lá”.
A conversa escapa depois da Flórida para um sem número de lugares distantes que ambos gostaríamos conhecer, passa pela música popular americana- “os meus favoritos sempre foram os Bee Gees, gosto muito de Everly Brothers, Righteous Brothers” e acaba na realidade actual do Norte Pequeno.
“Nesta altura do ano e para mais com a estrada a ser arranjada não passa aqui ninguém”, explica Domingos, que ao vender uns artigos de mercearia e servir uns cafés ou umas bebidas está praticamente a prestar um serviço social à pequena comunidade.
De repente, pega numa folha e pede-me para o ajudar a explicar o que ali está (muita da nossa conversa foi mantida em inglês). O papel explica que até 1 de Janeiro de 2013 Domingos vai ter de substituir a actual caixa registadora por duas novas. “É absurdo. Querem uma para a mercearia e outra para este pequeno balcão do bar. Dizem que custam dois mil euros. Não tenho clientes que justifiquem. “That’s it” (é isso), a partir de 1 de Janeiro fecho as portas. Não se justifica manter as portas abertas e fazer este investimento para servir meia dúzia de cafés”.
Domingos mostra-me a actual caixa registadora. “Cada vez que vem um cliente, leva um talão mas a partir de agora não chega”. A esposa entra por momentos no bar onde a conversa já vai longa e onde um amigo também leu atentamente o papel. “Já sabes alguma coisa das registadoras?” Vai-se informar, diz a esposa.
Uns quilómetros e umas quantas de bátegas de chuva mais à frente, discuto de novo o assunto com a dona de outro café: “É assim, é um convite a que muitos pequenos negócios fechem as portas”. Resta a Domingos, suponho, facturar menos de 100 mil euros por ano e conseguir prová-lo.