quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O CARAPACHO EM FIM DE SETEMBRO

O Carapacho é conhecido pelas termas de águas sulfurosas, pelas piscinas naturais, pelas casas de férias- uma das quais se destaca das demais para exibir a prosperidade do dono emigrante- e por se terem ali estabelecido os primeiros colonos liderados por Vasco Gil de Sodré, um "homem bom" de Montemor-o-Velho. Em fim de Verão, poucos ali vi, excepto um burro a dormitar debaixo de um abeto, um homem jovem a limpar a motorizada junto às termas. A Ermida de Nossa Senhora de Lurdes ergue-se nos ares do Carapacho e ninguém diz que foi danificada pelo sismo de 1980. 22-17 22-16 22-14 22-15

PELA LUZ E BAÍA DA FOLGA

Na Luz e na Folga caminho entre ermidas, impérios, igrejas quase sempre caiadas a branco. Pouco depois de passar a Igreja de Nossa Senhora da Luz, um templo fustigado ao longo dos séculos pelos sismos, fui ter ao cemitério e deste, junto a uma canada, surgiu um cavalo solitário a espreitar. Era sábado e no largo da Luz um homem dormitava num banco. Quando me viu passar, sentou-se e assim ficou, seguindo todos os meus passos. Deixei o cavalo e o homem solitário e rumei ao Carapacho, não sem antes ter ido meter o nariz na Folga e no seu mar azul. Um casal de estrangeiros tomava café numa esplanada pequena mas perfeita à beira-mar. Numa casa com a bandeira americana e a portuguesa, alguém escreveu: "Welcome to our home away from home" (bem vindos à nossa casa longe de casa)". 22-11 22-10 22-13

A COSTA SUL

Na costa sul, depois da Ponta Branca, encontro autênticas mini-estâncias balneares como a Beira Mar ou Carapacho entre reminiscências do passado agrícola, como esta eira à beira da estrada. 22-6 22-7

NA SERRA BRANCA

Na Serra Branca, já caminho em direcção ao mar do sul da ilha, entre o novo e o velho, eólicas à distância e velhas construções em pedra com chaminé "de mãos postas", subidas e descidas suaves que a elevação não ultrapassará os 600 metros. 22-4 22-5 22-2 22-3

A VIDA CONTINUA NA RIBEIRINHA

A vida ali parece correr vagarosa, ao sabor do tempo. Uma carrinha chega de Santa Cruz transportando as crianças da escola. Dá uma volta à rotunda em frente à igreja e volta a seguir. Aqui e ali, há pessoas a apanhar o milho e outras a colocá-lo nas burras. A maioria já só o planta para o dar aos animais que ali vão mais à frente, seguidos por uma mulher. 21 i 21 j 21 g 21 h

A CAMINHO DA RIBEIRINHA

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O ÚLTIMO MOLEIRO DE VITÓRIA

moleiro 5 Manuel Tomaz Picanço da Cunha tem 73 anos e foi o último moleiro de Vitória. Chegou há semanas de uma viagem ao Canadá-" fui a um casamento"-e é a primeira vez que regressa ao moinho desde então. O moinho de vento foi do seu sogro até este não poder trabalhar mais. Mais tarde e durante 30 anos, Manuel Tomaz teve-o por sua conta. Deixou de trabalhar nele há cerca de seis a sete anos mas com excepção dos mastros e de um velho motor que o sogro comprou em 1969 por "70 contos", o moinho está um regalo para a vista. Foi todo restaurado e pintado com ajuda a 50 por cento do governo regional. "Chegámos a ter, aqui na Graciosa, 23 a 24 moinhos. Não havia farinha, era preciso moer a cevada, o trigo, o minho. Agora já não há necessidade. Ele ainda está em condições de moer. O senhor pode ver aqui as velas...mas já não tenho ninguém da família que queira pegar nisto e era preciso alguém com prática". Manuel só não tem condições para reparar o anexo onde jaz o velho motor de 1969. "Isto foi a minha vida. Eu era escravo do vento. Quando o vento amansava, não podia moer tanto, era assim...Um a um vai mostrando os utensílios, até chegarmos a um búzio. "Este búzio? Servia para eu apitar e me trazerem mais material para moer sem ter de sair daqui" moleiro 1 moleiro 4

O ÚLTIMO DIA DE VINDIMAS DE MAXIMINO DA VEIGA

Estamos em fim de Setembro e ali perto, em Vitória, os últimos agricultores que ainda produzem vinho para consumo próprio-ainda se dão a esse trabalho, acossados pelas intempéries e pelos coelhos e ratos que vêm dos currais de vinha abandonados- terminam as duas vindimas. Nunca passou pela minha cabeça ajudar (ajudar é aqui um termo muito exagerado) a vindimar na Graciosa. Mas foi um prazer seguir por momentos o último dia de vindima de Maximino Silva da Veiga, um resistente de 84 anos que toda a vida ali trabalhou. "Este ano o vento fez mal às uvas, houve muita doença e ainda tive de andar aí sempre atento aos ratos, aos coelhos e aos melros", conta Maximino, que estudou até à antiga quarta classe e trabalha desde os 12 anos. "O meu pai foi sempre pobre e morreu aos 49 anos. Nunca tive outra alternativa que não fosse trabalhar o milho, o trigo, a vinha. Está a ver aquela tapada de vinha ali ao fundo? Chegue-se para aqui? Ali, aquele curral. Comprei-a em 1988. Enquanto puder, trabalho-a. Não gosto de ver televisão". O rumo que o campo tomou na Ilha Graciosa não foi diferente do das outras ilhas. A agricultura (milho, trigo, cevada, vinho) deu lugar às pastagens para a pecuária. "Isto no tempo em que a ilha tinha 12 mil habitantes (hoje tem cerca de quatro mil) era tudo semeado até lá acima à serra. Agora só querem saber das vacas, não querem saber disto". vindimas 5 vindimas 3 A vindima ali é assunto de família. Ajuda a filha, ajuda o genro, ajudam todos a colher as vinhas e a acartar os 18 cestos (dantes eram 50) para o lagar, bem à moda antiga, ainda com as pipas de vinho em madeira fabricadas no continente. "Aqui também temos tanoeiros ou ainda temos mas estes são melhores". Um dos familiares salta para dentro da cuba em cimento e pisa a uva, depois atira-se à prensa mecânica. "Para ver as antigas, em madeira, tem de ir ao nosso museu. Já lá foi? Lá estão as prensas de antigamente". vindimas 1 vindimas 4 vindimas 6 vindimas ultima A vindima termina em casa do filho de Maximino, que me convida a comer postas divinais de moreia frita e bicuda cozinhadas pela esposa. O ambiente é de fraternidade familiar. Devia ser sempre assim.

AS ROCHAS DE PORTO AFONSO

As formações que nos rodeiam quando descemos para o porto respiram vulcanismo, erosão, retorcidas em castanhos e negros. Fica ali parado e a pasmar, cada reeentrância e contorção competindo com a do lado. 21 20 21-23

PORTO AFONSO EM DIA DE VENTANIA

Lá ao fundo fica a Ponta Branca. Ali é Porto Afonso, afinal uma rampa em cimento rodeada de rochas castanhas e negras e avermelhadas. Em grutas aumentadas para o efeito, os pescadores construíram os seus abrigos para os barcos. É dia de muito vento e más previsões do estado do mar, não encontro por ali ninguém. 21 18 21 19 21-22 21-21

RAJADAS DE VENTO

Segui por um caminho em terra que leva a Porto Afonso. Ali a pedra é barrenta e as arribas perigosas, sobretudo naquele dia, em que entre rajadas mais mansas, avançava célere uma rajada daquelas de empurrar um homem lá para baixo. A vista é esplendorosa e em permanente mutação de luz e sombras e cores porque por cima da minha cabeça as nuvens nuncam páram. 21 -15 21-16 21-17

JUNTO À ERMIDA DA NOSSA SENHORA DA VITÓRIA

O mar ali é bravio mas de qualquer forma a ilha desenha ali um baixio que terá permitido aos corsários mouros desembarcar, saquear e levar reféns. Reza a história que um deles terá sido o então Capitão Governador da Ilha que mais tarde terá regressado com a imagem da Nossa Senhora. Teria sido ele, dizem os livros, quem construiu a ermida para ali viver o resto dos dias como ermitão. 21 10 21 11

ENTRE PONTA DA BARCA E SENHORA DA VITÓRIA

Desço para a zona nordeste da ilha entre cedro do mato e pedras negras. De quando em quando surgem os currais de pedra semi-abandonados, entre vinhas e fetos e restante mato. Custa ver construções tão engenhosas, concebidas para proteger a vinha do vento e da água do mar e reter o calor entre a pedra, jazer assim ao abandono. Ao fim de um pedaço solitário de estrada, dou com a Ermida de Nossa Senhora da Vitória, uma ermida isolada, junto ao mar. Foi construída para comemorar uma vitória do povo da ilha sobre corsários mouros lá para 1622, 1623 mas parece esquecida, de tamanha solidão. 21 12 dia 21-4 21 13

NA PONTA DA BARCA

O cilindro branco listado a preto ao fundo da estrada é o Farol da Ponta da Barca, um edifício de 1930 que já teve a sua quota-parte de intempéries e rajadas de vento. Por baixo, a baía, os rochedos, o mar varrido pelo vento e a rocha conhecida como "baleia de pedra". Para fotografar a maldita "baleia de pedra" vi-me em palpos de aranha por causa do vento que sacudia a máquina fotográfica compacta que tive de segurar como um desesperado. 21 6 21 7 21 8 21 9

CURRAIS DE VINHA DO BARRO VERMELHO

21 5 Houve um tempo em que a Graciosa produziu muito vinho e era mais fácil conseguir vinho que água numa ilha bastante mais seca do que as demais. A emigração, o abandono das terras fez com que os currais de vinha como este, a norte do aeroporto, ficassem assim, semi-abandonados. Os coelhos, os ratos, os melros encarregam-se de dizimar o resto.

RUMO A PONTA DA BARCA

O vento semore ele, empurrando-me em direcção à Ponta da Barca, no norte da pequena ilha. Para tirar esta foto com as placas tive de me agarrar bem a elas e claro está, o cabelo ficou no estado que se vê. dia 21 set 1 dia 21 -2 dia 21 3