VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
Manuel Tomaz Picanço da Cunha tem 73 anos e foi o último moleiro de Vitória. Chegou há semanas de uma viagem ao Canadá-" fui a um casamento"-e é a primeira vez que regressa ao moinho desde então. O moinho de vento foi do seu sogro até este não poder trabalhar mais. Mais tarde e durante 30 anos, Manuel Tomaz teve-o por sua conta. Deixou de trabalhar nele há cerca de seis a sete anos mas com excepção dos mastros e de um velho motor que o sogro comprou em 1969 por "70 contos", o moinho está um regalo para a vista. Foi todo restaurado e pintado com ajuda a 50 por cento do governo regional.
"Chegámos a ter, aqui na Graciosa, 23 a 24 moinhos. Não havia farinha, era preciso moer a cevada, o trigo, o minho. Agora já não há necessidade. Ele ainda está em condições de moer. O senhor pode ver aqui as velas...mas já não tenho ninguém da família que queira pegar nisto e era preciso alguém com prática".
Manuel só não tem condições para reparar o anexo onde jaz o velho motor de 1969. "Isto foi a minha vida. Eu era escravo do vento. Quando o vento amansava, não podia moer tanto, era assim...Um a um vai mostrando os utensílios, até chegarmos a um búzio. "Este búzio? Servia para eu apitar e me trazerem mais material para moer sem ter de sair daqui"

A vindima ali é assunto de família. Ajuda a filha, ajuda o genro, ajudam todos a colher as vinhas e a acartar os 18 cestos (dantes eram 50) para o lagar, bem à moda antiga, ainda com as pipas de vinho em madeira fabricadas no continente. "Aqui também temos tanoeiros ou ainda temos mas estes são melhores". Um dos familiares salta para dentro da cuba em cimento e pisa a uva, depois atira-se à prensa mecânica. "Para ver as antigas, em madeira, tem de ir ao nosso museu. Já lá foi? Lá estão as prensas de antigamente".
A vindima termina em casa do filho de Maximino, que me convida a comer postas divinais de moreia frita e bicuda cozinhadas pela esposa. O ambiente é de fraternidade familiar. Devia ser sempre assim.
Houve um tempo em que a Graciosa produziu muito vinho e era mais fácil conseguir vinho que água numa ilha bastante mais seca do que as demais. A emigração, o abandono das terras fez com que os currais de vinha como este, a norte do aeroporto, ficassem assim, semi-abandonados. Os coelhos, os ratos, os melros encarregam-se de dizimar o resto.