VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
E ao fim de horas de caminhada pelos caminhos perdidos e pouco frequentados da Ponta dos Rosais, vim ter a um parque florestal. Pela primeira vez senti-me distante de tudo o que vira até aí na ilha. Famílias e turistas piquenicavam ou passeavam à sombra dos fetos ou à beira de criptomérias, inevitáveis hortênsias e conteiras.
Depois de ter passado por uma réplica de um bote baleeiro a precisar de pintura e que me disseram ter sido oferta de um emigrante, acabei junto a uma vedação. Sentei, a mochila em descanso e pensei para comigo: "Foi preciso vir a São Jorge para ver gamos". E por ali fiquei, antes de enfrentar a sombra de alamedas de árvores robustas a caminho da Beira.
Um sábado na Calheta encontrei António Enes em família, de violão na mão, a tocar com o filho e outros familiares e amigos ao fim de um almoço prolongado e bem jorgense: “Prove o nosso queijo. Coma, você não come nada”
“Há 50 anos”, conta o tocador jorgense, “não havia nenhum entretenimento nocturno. O meu pai foi o melhor tocador de viola da terra na ilha e os serões eram passados em redor da viola”.
Os pais de António Enes compraram o segundo aparelho de rádio do concelho da Calheta. Até aí os vizinhos juntavam-se em redor da viola. “O meu pai tocava, o meu irmão também, eu tocava um bocadinho de violão e apareciam sempre os amigos. Depois veio o rádio mas continuámos sempre atocar”.
António Enes toca em sessões de fado amador, em tertúlias, num grupo etnográfico e “a sério”, como gosta de salientar, no grupo de música popular portuguesa “Tributo”: “Gravámos três cd’s e já andámos por muitos lugares. Corremos as ilhas todas, o continente, Cabo Verde, Canárias,Brasil, Estados Unidos, estivemos na Expo de Hannover…”
Apesar de ser apontado em toda a ilha como um dos melhores senão o melhor, António Enes é um homem modesto: “Dá-me mais prazer tocar integrado nos grupos. Sou um músico de acompanhamento. Toquei sempre em grupos”.
A música popular e nomeadamente a viola da terra parecem ressurgir em força em São Jorge, impulsionadas pelo renascimento dos bailes regionais. “Há dez anos atrás pensei que iria morrer tudo mas tem vindo a renascer tudo com muita força. Houve uma abertura de escolas nas sociedades,tem havido muita formação musical e há um grande renascimento”,
Os bailes que antigamente se organizavam pelas matanças do porco regressaram mas agora realizados nas sociedades recreativas."O meu pai era do Topo, uma espécie de ilha dentro da própria ilha. O Topo era uma zona de pobreza. E ele contava que se infiltravam nas festas que as famílias organizavam nas matanças para participar nos bailes”.
Os homens do Topo inventaram mesmo uma dança, “Os Pêssegos”, na qual cantavam uma parte na rua esperando que o dono da casa os convidasse a entrar e a ficar no baile. “Hoje, esses bailes de roda estão reactivados, é bom ver que estamos numa fase de recuperação das nossas tradições”.
O melhor da Ponta dos Rosais fica por detrás do farol, semi-escondido pela mata de urze que o cerca. As falésias, instáveis, caem a pique sobre o Oceano. Afastei um emaranhado de ramos e de repente, o mar azul e cristalino estava ali, a bramir por debaixo dos meus pés. Testemunha: O perfil deitado da Graciosa ao longe
O Farol da Ponta dos Rosais apareceu finalmente ao fundo, no final de uma longa recta perdida na extremidade ocidental da Ilha de São Jorge. De vez em quando, um coelho atravessava a estrada de um lado ao outro. Os coelhos são uma constante nas caminhadas em São Jorge, sobretudo em zonas menos habitadas como a Ponta dos Rosais ou as zonas altas do centro da ilha.
A Igreja Matriz actual, construída após a erupção vulcânica, em 1822
Laranja, saía dali do porto da urzelina muita laranja