quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SANTA LUZIA EM DIA DE PROCISSÃO

O céu turvo abate-se sobre as cabeças dos paroquianos da pequena freguesia de Santa Luzia. O vento faz rodopiar as bandeirinhas coloridas em redor da Igreja, construída em 1723 após uma erupção vulcânica na zona. Padre e congregação interrogam-se se deverão manter a procissão ou não. O andor sai numa súbita e benigna aberta que o céu concedeu aos fiéis, dá uma volta à pequena praça varrida pelo vento frio e regressa ao templo. pico 130 pico 131 pico 132 pico 133

SÃO ROQUE DO PICO

pico 86 P1080282 Este edifício e toda a zona envolvente tem uma longa história, toda ela envolvendo a captura das baleias, o seu desmanche e a sua transformação para uso industrial. Tudo terminou nos anos 80 mas a memória está na cabeça das pessoas e no Museu. Agora, aquele mesmo cais é palco durante o Verão de pelo menos um festival e acolhe pessoas de todas as idades que gostam de se banhar ali. Ainda na primeira metade do mês de Outubro vi lá uma senhora a banhar-se em dias de sol que mais tarde foram substituídos pelos de bruma e chuva fustigante. s roque Uma noite de Outubro o mar rebelou-se e encarregou-se de enviar pedras para a frente do que foi a fábrica das baleias e hoje é museu. Mais adiante, no caminho que faço diáriamente para a Pousada da Juventude do Pico, o mar fustiga o muro e obriga-me a passar para o passeio do outro lado, não vá levar com um duche em cima. pico 85 a

DE SANTO AMARO A SÃO ROQUE

Acontece com frequência no mar dos Açores e tive a possibilidade de assistir enquanto caminhava da Prainha até São Roque. Uma mancha de água da chuva, uma cortina de vapor avançava dos lados de São Jorge em direcção ao Pico embranquecendo o Oceano à sua passagem. Já em São Roque passei junto a um exemplar magnífico de arquitectura baleeira. Esta casa, conhecida na ilha como "Casa Azul", respira a influência das casas americanas trazida pelos tripulantes picoenses que labutaram nos navios baleeiros americanos. As varandas, o pórtico, a torre em madeira são influências trazidas da costa leste dos Estados Unidos, nomeadamente de New Bedford. O mar do Pico, esse, nunca dá tréguas. A marginal que segue até ao Cais do Pico testemunha essa batalha furiosa entre as vagas azuis e as rochas encarquilhadas que mais parecem dentes negros espumando baba branca. 114 115 116

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

NA OFICINA DO MESTRE JOÃO ALBERTO

“A fibra de vidro está na moda, percebe? Livram-se de calafetar, tudo bem mas havia de haver uma escola onde os jovens que quisessem aprendessem a construir a arte de construir em madeira”. Bati à porta do Mestre João Alberto das Neves num dia de borrasca. Desde o dia anterior que vagas sucessivas arremetiam contra o molhe em cimento do cais de Santo Amaro, na costa norte da Ilha do Pico. Mais adiante, rochedos negros e afiados libertavam espuma branca como baba em fúria. Ali por perto e infelicidade minha, o museu privado de construção naval de Santo Amaro estava fechado. A freguesia foi sempre um grande centro de construção naval e João Alberto, juntamente com outros mestres, um dos seus artífices. Recentemente foi homenageado numa exposição organizada pelo Museu do Pico e exibida no Museu da Indústria Baleeira em São Roque. No prefácio ao livro da exposição, Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico explica que homenagear o Mestre João Alberto é também revisitar “a memória dos Mestres Manuel Bento, Manuel Joaquim Melo, José Melo, José Teixeira Costa e Júlio de Matos, e a de todos os mestres, contra-mestres, carpinteiros e restantes trabalhadores que participaram na epopeia da construção naval em Santo Amaro e no Pico”. Quando chegou a Santo Amaro em 1961, vindo da sua nativa Urzelina, em São Jorge, Santo Amaro era palco de muitas construções de navios: “Era um movimento muito grande. Havia aqui três mestres e esses três não davam para as encomendas”. João Alberto das Neves foi trabalhar para o estaleiro do Mestre José Teixeira Costa. “Trabalhei com ele até 1972. Construímos 17 traineiras”. Foi então que se estabeleceu por conta própria. Ao todo, ao longo dos tempos, construiu 50 embarcações. Só atuneiros de grande porte para a chamada “Frota Azul” foram 10. “Tinha havido uma paragem grande na construção e o governo regional apostou na construção da frota azul. O mestre José Costa ainda fez dois antes de morrer, eu fiz 10”. Hoje, o mestre João Alberto das Neves lamenta o estado a que chegaram embarcações emblemáticas da região. “Mal empregadas…a lancha Espartel está a apodrecer, a Espalamaca também. Foi morrendo tudo, restam quatro traineiras que construí”. A construção em madeira decaíu muito. Uma das razões é a fibra de vidro, outra é a protecção ao cedro do mato. “Tinhamos o cedro do mato para trabalhar. Inventaram que o cedro do mato está em extinção. Deviam deixar uma quantidade de cedro destinada a construir. Todos esses atuneiros que eu fiz foram com cedro do mato. Agora, o mestre dedica-se a pequenas reparações. “Sim, reparações pequenas. Neste momento estou na Madalena a reparar um barquinho em madeira e fibra”. De vez em quando faz miniaturas. Um exercício de nostalgia. Na oficina há dezenas de fotos dos 50 botes, lanchas e traineiras que foi construindo ao longo da vida mas várias miniaturas em madeira: “Tinha aqui um começado mas depois o senhor foi para a América, nunca mais o vi. Ainda aqui estão os tirantes…” pico 96 a 111 110

EM SANTO AMARO NUM DIA DE MAR TURBULENTO

Passei junto à Escola de Artesanato de Santo Amaro e já dali podia ver as ondas muito brancas a abaterem-se sobre o betão do pequeno porto em vagas sucessivas. O mar do Pico em fúria hipnotiza, sobretudo quando se abate sobre as rochas negras e afiadas. Naquele caso, o que me impressionava era a propria fragilidade de uma estrutura feita para suportar grande ondulação. A dado momento, decidi bater em retirada quando o mar invadiu o porto e...as minhas botas. 107 113 112

NA OFICINA DE VIMES DE MANUEL MORAIS

Ía a atravessar Terra Alta, vindo da Piedade e apressava-me para chegar ao antigo centro de construção naval de Santo Amaro quando vi uma placa a anunciar cestos de vimes. Parei. De repente, de uma porta aberta, um homem sentado no chão gritou: “Entre, entre!” Era Manuel Morais, o último homem a fazer artigos em vime na ilha. “Antigamente, todas as freguesias tinham gente a fazer cestos. Não existia o plástico e o cesto era necessário para a vindima, para a apanha do milho”. Manuel Morais trabalhou 37 anos na fábrica de lacticínios Martins & Rebelo cujos postos de recolha abandonados ainda se podem ver à borda das estradas. “Faliu, virei-me para a agricultura”. Ao fim de 16 anos a lavrar milho e inhame e a tratar das vacas, reformou-se com a reforma da PAC. Nessa altura, dedicou-se ao vime que o leva a trabalhar 16 horas por dia e a correr aos fins de semana as festas e feiras da Ilha do Pico. Ainda no fim de semana passado o vi com a sua carrinha de caixa aberta carregada de vimes na festa das Terras Altas, Lajes do Pico. “Eu vou a todo o lado mas há muita gente que sabe onde eu moro e trabalho e desloca-se aqui. Este ano graças a Deus foi um ano bom, tivemos muito turismo e muitos emigrantes a comprar”, explica. O que Manuel Morais mais vende são os cestos em vime, os “açafates” que carregam as rosquilhas nas festas religiosas. “E ainda há quem use os cestos para a vindima e para o milho. Os produtos dentro do plástico apodrecem ao fim de um mês enquanto no vime podem estar um ano que não apodrecem”. Outro produto procurado pelos emigrantes é o cabaz ou a miniatura do cabaz em vime que os baleeiros levavam com comida para dentro dos botes. “É uma forma de recordarem o que tinham aqui na Ilha do Pico”. Agora, no Inverno, Manuel Morais trabalha já para o próximo Verão. “Tenho de trabalhar muito agora porque nessa altura é tempo de vender”. Lá para Janeiro, agricultores de toda a ilha cortam vime e vêem vender. “Das Bandeiras aos Foros, cortam e vêem aqui vender-mo, já sabem que eu preciso”. Depois, quem coze o vime durante horas é Manuel Morais. “Pensava que eles já mo traziam cozido? Sou eu”, responde a rir. A Câmara Municipal de São Roque do Pico fez-lhe recentemente uma homenagem- “talvez eu não merecesse tanto, sei lá”- mas do que Morais gostava mesmo era que alguém continuasse a arte. “As pessoas que quiserem podem vir aqui que não pagam nada para aprender. Precisam é de ter vontade de aprender. Isto dá trabalho. Um garrafão leva oito horas a empalhar, uma garrafa quatro” E as escolas? “As escolas podiam desafiar alunos a aprender e eu não me importava de ir um dia por semana a São Roque e outro dia à Madalena. Para que esta arte não se perdesse, está a compreender?” vimes 5 vimes 4 vimes 6

PELO LITORAL NORTE DO PICO EM DIA DE CHUVA

A chuva lustra o asfalto e o verde das videiras e das figueiras. Desta vez não aconteceu como em São Mateus, do outro lado da ilha, quando um grandioso arco-íris cobriu o pano do céu de uma ponta à outra. Foi pouco depois de ter descido ao Porto do Calhau que as bátegas fustigaram com intensidade a estrada numa zona mais arborizada. 99 102 103 104

ATÉ À PIEDADE

A Ponta da Ilha é um dédalo de velhos currais de pedra (uma zona onde já se produziu muito verdelho) e de campos verdejantes com vista para a Ilha de São Jorge. pico 74

domingo, 11 de novembro de 2012

ATÉ À PONTA DA ILHA

A Ponta da Ilha é um mar de rochas negras e de antigas adegas do verdelho. Entre a Manhenha e a Piedade passo por incontáveis muros de pedra e vestígios do que dantes eram vinhedos. As pedras negras são ali, como em outras zonas da Ilha do Pico, símbolo de adversidade. "O Pico era a ilha maldita, incultivável e a sua gente só permaneceu graças a uma grande obstinação, tenacidade e capacidade de resistência enormes. Foi sempre muito difícil ficar aqui e exigiu sempre uma capacidade de trabalho na terra e no mar sem limites", explica Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico. pico 70 pico 71 pico 69 pico 67 pico 68 pico 66

PONTAS NEGRAS-CALHETA DE NESQUIM

De repente saio da estrada principal que leva à Piedade e desço e desço até à terra de baleeiros da Calheta de Nesquim, terra do lendário Capitão Anselmo e do escritor Dias de Melo. Anselmo Silveira da Silva, que embarcou de salto num navio baleeiro, foi trancador, oficial, piloto e capitão da baleação no Atlântico, no Índico, no Pacífico, no Ártico e no Antártico. Conta-se que matou baleias na costa da Gronelândia e no Estreito de Bering. Quando regressou, fundou a primeira armação baleeira do Pico, precisamente na Calheta do Nesquim. Faleceu em 1912 mas a Calheta não o esquece, uma Calheta de Nesquim bafejada pelo sol e posta em sossego. "O senhor é do continente?", pergunta um homem entretido em cima do molhe a pescar, "muito gostam as pessoas do continente da Ilha do Pico". pico 61 pico 65 pico 62 pico 60 pico 59

MANUEL ANDRÉ: "A VIOLA DA TERRA É O BARÂMETRO DA CHAMARRITA"

A Chamarrita do Pico conta actualmente com muito mais violões e bandolins a acompanhar do que violas da terra. Manuel Horácio Serpa André, das Pontas Negras, é uma excepção. "É uma pena porque a viola, afirma Manuel, "é o barâmetro do ritmo da chamarrita. O violino e o bandolim não são suficientes. O som tem de ser preenchido com a viola da terra." Antigamente, afirma, " a chamarrita era tocada quer nas casas particulares quer nas filarmónicas com violas da terra. Mais tarde veio o violino e o bandolim. Hoje quase não há viola da terra na Chamarrita". Há, direi eu, a do discreto e humilde Manuel André, natural das Ribeiras e que viveu 27 anos em Santa Maria. "Quando me reformei e regressei ao Pico voltei a tocar a viola. É pena que não aja mais gente a tocar viola na chamarrita mas ela requer aprendizagem e muitos anos de prática", explica Manuel, que toca com a viola construída na Terceira pelo falecido faroleiro e construtor de violas Lobão. "Mandei fazer com dois corações". pico 75 pico83 pico 82

EM CASA DE MANUEL CANARINHO, MESTRE DA CHAMARRITA, NAS PONTAS NEGRAS

pico 85 "Entre", diz Manuel Canarinho, quando me ouve aproximar da porta aberta. Está na sala a jantar com a esposa. Dele diz o insuspeito e conhecedor Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico: "O Manuel é o herdeiro dos cantadores extraordinários que a ilha tinha. Além de grande executante (rabeca, viola da terra, bandolim, violão) é o verdadeiro cantador da chamarrita. A voz dele é metálica, aguda, seca, gritada, quase marroquina". É esse exímio cantador e tocador de chamarrita do Pico que eu encontro agora na sua casa das Pontas Negras, um homem criado entre o campo e a música tradicional. "O meu pai tocava, a minha mãe também, enfim, isto da música já vem dos meus antepassados." Manuel é de um tempo em que não havia nem rádio nem televisão. "O primeiro rádio na Ponta Negra apareceu quando eu tinha 10 anos. Eu só ouvia a música tocada pelos meus pais. O meu pai tinha um pequeno acordeão. Era um som alegre e era convidado para tocar no carnaval. Já a minha mãe tocava guitarra portuguesa". De todos os intrumentos que foi aprendendo a tocar, Manuel Canarinho afeiçou-se pela rabeca: Aprendi a tocar o violino sózinho, de ouvir nos bailes de chamarrita. Adoro violino porque suaviza a música, alisa-a, é como se fosse a lixa..." A introdução de bandas, conjuntos, relegou os bailes de dança e a chamarrita quase para a extinção. " A chamarrita era uma coisa dos antigos", afirma Manuel Canarinho que aponta o documentário sobre a mesma realizado por Tiago Pereira como uma das razões para o ressurgimento actual: "Fazia-se um ou dois bailes por ano de chamarritas aqui na zona das Lajes do Pico e agora é quase todos os fins de semana". A chamarrita já é dançada em bares e discotecas da ilha. Apesar de tudo, Manuel Canarinho gostava que os jovens do Pico ganhassem a mesma paixão e orgulho que viu no Canadá junto dos jovens emigrantes. "Eu acho que tem a ver com a saudade, eles cantam e tocam com uma alegria e presença em palco muito boa. E eu acho também que daqui a 50 a 100 anos será nas nossas comunidades que as tradições se vão manter. É a saudade..."

sábado, 10 de novembro de 2012

DAS RIBEIRAS ÀS PONTAS NEGRAS

As Ribeiras vão ficando lá em baixo enquanto subo já em direcção às Pontas Negras, onde mais tarde encontrarei o grande mestre da Chamarrita, Manuel Canarinho. pico 56 pico 57 pico 58

CHAMARRITAS NA CASA DO POVO DAS RIBEIRAS

Lá fora a escuridão e a chuva a cântaros e eu sem dar com a Casa do Povo das Ribeiras que só mais tarde descobri estar afastada do centro da povoação cerca de dois quilómetros. "É nesse ramal de cima", explicou-me um jovem a treinar bateria de auscultadores nos ouvidos num salão enorme e vazio da sociedade recreativa. Eu subi o ramal de cima até a escuridão engolir a estrada, voltei a descer, até finalmente encontrar um senhor de guarda-chuva na mão. Que sim, que também ía para a Casa do Povo das Ribeiras e que estava à espera de transporte. "O presidente da Casa do Povo disse-me que passava aqui em baixo a buscar-nos". Lá liguei ao presidente e dentro em pouco lá estava ele, sorridente, alguém que nunca me vira na vida a convidar-me a entrar na carrinha para seguirmos para cima. Ainda demos umas voltas à procura de mais pessoas que tinham dito que queriam ir. Como sempre nos bailes, a sala foi enchendo aos poucos, as pessoas sentando-se nas cadeiras em redor da área onde se iria dançar. Os músicos (parte da fina flor da ilha) foram chegando aos poucos e sentando-se a afinar os instrumentos ou a conversar. Como o ritmo da Chamarrita é frenético os músicos tocam sem parar e sentados. Seria muito cansativo fazê-lo em pé. Violões e bandolins não faltavam, pena foi a presença de poucas violas da terra e de poucos violinos. O salão manteve-se cheio de gente, muitos de idade avançada, outros muito jovens, até cerca das duas da manhã, enquanto os pares dançavam frenéticamente, primeiro em grupos organizados ( uma fenómeno recente), depois para quem quisesse dançar. Entre arrematações de caranguejos e de outros bens comestíveis, as coisas foram sempre acelerando até terminarem de madrugada na cozinha da Casa do Povo das Ribeiras onde todos (eu também) foram convidados a comer sopa de peixe e muitas outras iguarias locais. pico 80 pico 79 pico 76 José Felix (que substituiu em determinada altura Manuel Canarinho na rabeca), Manuel André (viola da Terra) Aurora (bandolim) e Sr. Soares (bandolim) pico 77 pico 74 a Sr Soares pico 81 pico 78