domingo, 11 de novembro de 2012

PONTAS NEGRAS-CALHETA DE NESQUIM

De repente saio da estrada principal que leva à Piedade e desço e desço até à terra de baleeiros da Calheta de Nesquim, terra do lendário Capitão Anselmo e do escritor Dias de Melo. Anselmo Silveira da Silva, que embarcou de salto num navio baleeiro, foi trancador, oficial, piloto e capitão da baleação no Atlântico, no Índico, no Pacífico, no Ártico e no Antártico. Conta-se que matou baleias na costa da Gronelândia e no Estreito de Bering. Quando regressou, fundou a primeira armação baleeira do Pico, precisamente na Calheta do Nesquim. Faleceu em 1912 mas a Calheta não o esquece, uma Calheta de Nesquim bafejada pelo sol e posta em sossego. "O senhor é do continente?", pergunta um homem entretido em cima do molhe a pescar, "muito gostam as pessoas do continente da Ilha do Pico". pico 61 pico 65 pico 62 pico 60 pico 59

MANUEL ANDRÉ: "A VIOLA DA TERRA É O BARÂMETRO DA CHAMARRITA"

A Chamarrita do Pico conta actualmente com muito mais violões e bandolins a acompanhar do que violas da terra. Manuel Horácio Serpa André, das Pontas Negras, é uma excepção. "É uma pena porque a viola, afirma Manuel, "é o barâmetro do ritmo da chamarrita. O violino e o bandolim não são suficientes. O som tem de ser preenchido com a viola da terra." Antigamente, afirma, " a chamarrita era tocada quer nas casas particulares quer nas filarmónicas com violas da terra. Mais tarde veio o violino e o bandolim. Hoje quase não há viola da terra na Chamarrita". Há, direi eu, a do discreto e humilde Manuel André, natural das Ribeiras e que viveu 27 anos em Santa Maria. "Quando me reformei e regressei ao Pico voltei a tocar a viola. É pena que não aja mais gente a tocar viola na chamarrita mas ela requer aprendizagem e muitos anos de prática", explica Manuel, que toca com a viola construída na Terceira pelo falecido faroleiro e construtor de violas Lobão. "Mandei fazer com dois corações". pico 75 pico83 pico 82

EM CASA DE MANUEL CANARINHO, MESTRE DA CHAMARRITA, NAS PONTAS NEGRAS

pico 85 "Entre", diz Manuel Canarinho, quando me ouve aproximar da porta aberta. Está na sala a jantar com a esposa. Dele diz o insuspeito e conhecedor Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico: "O Manuel é o herdeiro dos cantadores extraordinários que a ilha tinha. Além de grande executante (rabeca, viola da terra, bandolim, violão) é o verdadeiro cantador da chamarrita. A voz dele é metálica, aguda, seca, gritada, quase marroquina". É esse exímio cantador e tocador de chamarrita do Pico que eu encontro agora na sua casa das Pontas Negras, um homem criado entre o campo e a música tradicional. "O meu pai tocava, a minha mãe também, enfim, isto da música já vem dos meus antepassados." Manuel é de um tempo em que não havia nem rádio nem televisão. "O primeiro rádio na Ponta Negra apareceu quando eu tinha 10 anos. Eu só ouvia a música tocada pelos meus pais. O meu pai tinha um pequeno acordeão. Era um som alegre e era convidado para tocar no carnaval. Já a minha mãe tocava guitarra portuguesa". De todos os intrumentos que foi aprendendo a tocar, Manuel Canarinho afeiçou-se pela rabeca: Aprendi a tocar o violino sózinho, de ouvir nos bailes de chamarrita. Adoro violino porque suaviza a música, alisa-a, é como se fosse a lixa..." A introdução de bandas, conjuntos, relegou os bailes de dança e a chamarrita quase para a extinção. " A chamarrita era uma coisa dos antigos", afirma Manuel Canarinho que aponta o documentário sobre a mesma realizado por Tiago Pereira como uma das razões para o ressurgimento actual: "Fazia-se um ou dois bailes por ano de chamarritas aqui na zona das Lajes do Pico e agora é quase todos os fins de semana". A chamarrita já é dançada em bares e discotecas da ilha. Apesar de tudo, Manuel Canarinho gostava que os jovens do Pico ganhassem a mesma paixão e orgulho que viu no Canadá junto dos jovens emigrantes. "Eu acho que tem a ver com a saudade, eles cantam e tocam com uma alegria e presença em palco muito boa. E eu acho também que daqui a 50 a 100 anos será nas nossas comunidades que as tradições se vão manter. É a saudade..."

sábado, 10 de novembro de 2012

DAS RIBEIRAS ÀS PONTAS NEGRAS

As Ribeiras vão ficando lá em baixo enquanto subo já em direcção às Pontas Negras, onde mais tarde encontrarei o grande mestre da Chamarrita, Manuel Canarinho. pico 56 pico 57 pico 58

CHAMARRITAS NA CASA DO POVO DAS RIBEIRAS

Lá fora a escuridão e a chuva a cântaros e eu sem dar com a Casa do Povo das Ribeiras que só mais tarde descobri estar afastada do centro da povoação cerca de dois quilómetros. "É nesse ramal de cima", explicou-me um jovem a treinar bateria de auscultadores nos ouvidos num salão enorme e vazio da sociedade recreativa. Eu subi o ramal de cima até a escuridão engolir a estrada, voltei a descer, até finalmente encontrar um senhor de guarda-chuva na mão. Que sim, que também ía para a Casa do Povo das Ribeiras e que estava à espera de transporte. "O presidente da Casa do Povo disse-me que passava aqui em baixo a buscar-nos". Lá liguei ao presidente e dentro em pouco lá estava ele, sorridente, alguém que nunca me vira na vida a convidar-me a entrar na carrinha para seguirmos para cima. Ainda demos umas voltas à procura de mais pessoas que tinham dito que queriam ir. Como sempre nos bailes, a sala foi enchendo aos poucos, as pessoas sentando-se nas cadeiras em redor da área onde se iria dançar. Os músicos (parte da fina flor da ilha) foram chegando aos poucos e sentando-se a afinar os instrumentos ou a conversar. Como o ritmo da Chamarrita é frenético os músicos tocam sem parar e sentados. Seria muito cansativo fazê-lo em pé. Violões e bandolins não faltavam, pena foi a presença de poucas violas da terra e de poucos violinos. O salão manteve-se cheio de gente, muitos de idade avançada, outros muito jovens, até cerca das duas da manhã, enquanto os pares dançavam frenéticamente, primeiro em grupos organizados ( uma fenómeno recente), depois para quem quisesse dançar. Entre arrematações de caranguejos e de outros bens comestíveis, as coisas foram sempre acelerando até terminarem de madrugada na cozinha da Casa do Povo das Ribeiras onde todos (eu também) foram convidados a comer sopa de peixe e muitas outras iguarias locais. pico 80 pico 79 pico 76 José Felix (que substituiu em determinada altura Manuel Canarinho na rabeca), Manuel André (viola da Terra) Aurora (bandolim) e Sr. Soares (bandolim) pico 77 pico 74 a Sr Soares pico 81 pico 78

HOMENAGEM AO PICO, RIBEIRAS

pico 55 Há muitas formas de manifestar que se ama a ilha onde se vive e esta é forçosamente uma delas.

RIBEIRAS

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PATINÓDROMO DO RIBEIRENSE

Enquanto circulava junto ao litoral das Ribeiras, não muito longe da discoteca onde uma noite assisti a uma sessão de chamarritas (é verdade, chamarritas numa discoteca, com luzes coloridas e tudo) dei com esta estrutura que depois me disseram ser um patinódromo utilizado pelo Ribeirense. Uma vez que Santo António também tem outro grupo de patinagem, consta (na realidade li no site da Rádio Pico) que um novo patinódromo será construído em 2013 no concelho de São Roque. pico 52

PARAÍSO À BEIRA-MAR

Alguém nas Ribeiras teve esta ideia genial, bem perto de uma discoteca e de uma pista de corrida em patins. Ali ao lado das rochas negras e do mar endiabrado do Pico. Não falta a churrasqueira. Gabo-lhe a imaginação. Nos Estados Unidos chamarlhe-iam "the perfect spot". Imaginem no Verão, uns quantos sargos, umas lapas... pico 50 pico 51

domingo, 4 de novembro de 2012

O MENINO DOS FOGUETES

Chamo-lhe o menino dos foguetes porque nunca soube o nome dele. Começámos por conversar horas antes da procissão, ainda ele vestia uma t-shirt que lembrava um clube de futebol italiano e me perguntava se conhecia este ou aquele. Mais tarde, surpreendiu-o junto a um familiar, transportando diligentemente os foguetes. pico 86 pico 87

PROCISSÃO NAS TERRAS (LAJES)

Domingo dia 14 de Outubro foi dia de eleições nos Açores e de procissão e arraial nas Terras. Deixei os populares ocupados a receber as rosquilhas ou a confraternizar junto de pratos de favas e pratos de codornizes para espreitar os resultados eleitorais na sala da Sociedade da freguesia. Comigo estavam pouco mais de 5, 6 pessoas. Lá fora a entrega das rosquilhas e o vaivém de automóveis a partir no pós festa continuava. pico 90 pico 91 pico 93 pico 92 pico 94

sábado, 3 de novembro de 2012

TERRAS-ARRIFE

pico 47 Amor adolescente

A CAMINHO DAS TERRAS

Largo a baía das Lajes num belo dia de sol e avanço em direcção a oriente. A determinada altura, o Pico e a Ponta do Castelete já nas costas, paro num miradouro e aprecio lá para baixo as terras das Ribeiras onde daí a pouco assistirei a um baile desenfreado de chamarrita. pico 42 pico 43 pico 44 pico 45

"AS BALEIAS? ERA O BICHINHO E A NECESSIDADE"

pico 96 António Domingos Ávila, 67 anos, baleeiro, ex-arpoador, mais conhecido por "Ritinha", fala comigo na esplanada do estabelecimento com o mesmo nome, nas Lajes do Pico: "Tenho este café há mais de 30 anos. Andava na baleia e regressava aqui para uns petiscos, uns caldos de peixe". Como muitos ali nas Lajes, pertence a uma família de baleeiros. "O meu bisavô foi capitão de uma baleeira americana em New Bedford. Na minha família havia arpoadores e trancadores". O "bichinho" da caça à baleia cresceu cedo em António Domingos Ávila. Aos 16 anos começou a ir ao mar em substituição de algum marinheiro que adoecia ou se pisava. Mais tarde, tirou carta de arpoador. "Comecei a trancar baleia aos 19 anos". Ao longo da vida de marinheiro, "Ritinha" foi também mestre da pesca do atum em Portugal, em Cabo Verde e durante oito anos em San Diego, na Califórnia. O "bichinho" de perseguir baleias nunca o perdeu. " Fala-se muito de ser uma actividade perigosa mas eu digo sempre que há actividades mais perigosas em terra. Se a baleação continuasse, as mulheres íam. Eu tenho 67 anos e lembro-me de ter morrido um baleeiro quando era criança. De resto, havia pisaduras, partia-se um bote, um braço de um marinheiro, um dedo..." "Ritinha" argumenta que já no seu tempo os utensílios de caça à baleia haviam melhorado: "Foi evoluindo com o tempo. Ultimamente, os panos eram mais leves, os arpões também, os cabos também. O perigo era menor".Ainda hoje "Ritinha" não se conforma de como tudo terminou- "foi tudo negociado nas nossas costas". Sobre a actividade de avistamento de baleias para turistas, conhecida pela designação inglesa de "whale watching", tem a sua opinião bem definida: "Andei nove anos a fazer "ww". O que aconteceu é que das duas ou três baleias que dantes apareciam, agora aparecem nove ou dez e o negócio cresceu muito. Só que antigamente a baleação dava a ganhar a muita gente e agora há um tipo que tem uma empresa, que não percebe nada daquilo, leva os turistas haja baleia ou não e dá a ganhar uns farelos aos que trabalham para ele". António fala dos empresários de "whale watching" sem papas na língua: "Aprenderam comigo. Íam de qualquer forma e espantavam as baleias. Ora, como o cachalote vê para a banda é preciso entrar sempre pelo rabo delas e com cautela para não espantar". "Ritinha" vê o mar dos Açores a ficar saturado e acha que mais tarde ou mais cedo vão ter de ser abertas quotas: "O mar vai ficar saturado de cachalotes e já falta comida aos golfinhos. Tudo tem de ter um controlo".

O "BARBEIRO", O ÚLTIMO DOS BALEEIROS DO PICO

pico 88 Francisco Joaquim Machado vai perfazer 94 anos no dia seguinte. É um homem alto, ombros largos e seco de carnes, que tem orgulho em colocar o tradicional chapéu de palha na cabeça antes de falar dos velhos tempos. Apesar da manhã nebulada e chuvosa acaba de chegar da pesca. “Pesquei uns sargos para grelhar. Se toda a minha vida foi o mar, porque não hei-de pescar?” Na realidade, um apaixonado pela vida marítima numa vila, a das Lajes, consumida pela baleação, Francisco viveu como a maioria dos homens do Pico, entre as ondas e a terra. “Era baleeiro mas barbeiro também e ainda tinha vinho, batatas, laranjas e milho. Tinha de se ir buscar o dinheirinho a tudo”. Francisco trabalhou de barbeiro na tropa e instalou-se como tal nas Lajes mas difícil seria não se deixar envolver pela febre das baleias. “O meu avô era baleeiro e o meu pai também. Naquele tempo, nas Lajes, toda a gente ía às baleias para conseguir mais algum dinheiro”. Um tempo em que ter uma única profissão não era suficiente e em que a maioria só pagava a conta da mercearia quando recebia do armador. Os que mesmo assim não se governavam, emigravam. O “barbeiro” nunca emigrou, o que faz dele e dos seus cerca de 40 anos de caça à baleia um caso de exemplar veterania, premiada no dia em que o ex-Presidente da República Jorge Sampaio o condecorou. Ao som do foguete, o sapateiro largava a oficina, o agricultor deixava a enxada, o pedreiro saltava do andaime. “Eu pegava na bicicleta e ía. Uma vez deixei um homem a quem estava a cortar o cabelo na cadeira, a meio de um corte mas ele era baleeiro e também precisava de ir”. Dentro do bote e muito mais tarde ao leme de uma lancha, o barbeiro passava a velho lobo do mar. “Fui arpoador, depois passei a oficial e no fim pilotei uma lancha”. Em 40 anos, Francisco Joaquim Machado enfrentou e caçou dezenas de baleias. Algumas, poucas, deram-lhe água pela barba. “Às vezes aparecia a ponta do rabo da baleia e partia a canoa. Já nos últimos tempos, o vigia deu sinal de um cachalote. Arpoámos a baleia mas ela não foi para baixo como esperávamos”. Francisco deu ordens à tripulação para recuar o bote umas “30 a 40 braças” para que ela ficasse à proa. “Não foi o suficiente. A baleia veio rente ao bote com a cabeça e deixou-a caír devagarinho. Não o quebrou mas encheu-o de água”. O mestre Francisco mandou imediatamente cortar a linha não fosse a baleia arrastar tudo. “Pus a bandeira no ar, chamei a lancha e mandei mastro, palamenta e tripulação para a lancha. Eu era o mais velho, fiquei no bote depois de esgotada a água a balde”. De repente, o vigia avisa que a baleia continua por ali. “Fomos a terra, umas 5 a 6 milhas buscar outra canoa. Largámos a remos, demos com ela, sempre a bater por cima e por baixo. O arpoador pegou na lança e matou o cachalote. Depois amarrámos um cabo grosso à lancha e rebocámo-la para a fábrica de São Roque. Não se pisou ninguém”. A vida de baleeiro era perigosa e Francisco teve convites para a trocar pela mais rentável e segura pesca do atum. “Tive vários convites para mestre de uma traineira do atum. Perguntava à minha mulher o que ela achava e ela dizia que não percebia do assunto, dizia para eu decidir. Eu não dormia a pensar naquilo até que cheguei à conclusão: Para quê deixar uma vida que já conhecia por outra nova. Afinal de contas eu andava nas baleias desde os 17 anos…” Medo sempre teve. “Quem não tem medo é ignorante. Eu tinha medo mas o medo tem de ser afastado senão não conseguia enfrentar a baleia”. Já muitos entrevistadores lhe perguntaram pela “vida dura” da baleação. “Eu respondo sempre que sim, que era dura e perigosa mas que também é perigoso andar de avião, de autocarro. Há desastres em todo o lado. Em toda a minha vida de baleeiro morreram cinco ou seis tripulantes”. Um dia dos anos 80 do século passado, a actividade que dava vida a uma ilha inteira terminou. Francisco pertenceu à comissão instaladora do Museu dos Baleeiros nas Lajes. Quando o então Presidente da República Mário Soares o visitou, interpelou-o. “Perguntei-lhe porque é que não nos dava uma quota para apanharmos por ano 3 ou 4 machos. Era um pingo de água no Oceano. Respondeu que não, que a CEE não deixava…” As Lajes do Pico, que tinham chegado a ter 16 botes com sete homens em cada a caçar as baleias perdeu a sua principal actividade. Em 87, alguns ainda desafiaram a lei. Depois, cada um foi à sua vida. Uns foram para a pesca do atum, outros emigraram, outros ficaram com as profissões que já mantinham. Nesse ano chegou às Lajes o francês “pioneiro” de avistamento de baleias para turistas. Nasceram os museus e a memória da baleação já preservada em livro através de autores como Dias de Melo ficaria gravada em quatro paredes. Não têm faltado verbas para recuperação dos botes e construção de réplicas e são realizadas regatas em diversas ilhas. “Foi muito bom manterem as canoas e é pena não poderem manter uma pequena quota. Eu bem dizia ao Mário Soares: Senhor Presidente, são três ou quatro cachalotes, não representam nada. E ele sempre: “É a CEE, a CEE…”

NO MUSEU DOS BALEEIROS

O gabinete de Manuel Francisco Costa, 52 anos, director do Museu do Pico tem uma janela com vista para a vertente oriental do Pico. Fui lá à procura de dicas sobre baleias, adegas e música popular. Enquanto conversamos, é impossível não desviar o olhar do mar para a montanha e da montanha remeter de novo para o gabinete. Falamos de chamarritas e da viola da terra e da rabeca de Manuel Canarinho, um músico que verei a actuar mais tarde. Manuel Francisco Costa toca viola, canta e é um apaixonado pela cultura popular da ilha, razão mais do que suficiente para o visitar. Desde que o micaelense Rafael Carvalho me seduziu com o som inconfundível da viola da terra e a necessidade de a preservar e difundir, que pergunto por ela em cada ilha que visito. O Pico não é excepção. "Há poucos executantes neste momento", explica-me Manuel Francisco Costa, "e existe a ideia de se dar aulas na Madalena e nas Lajes". Manuel, como muitos nas ilhas, cresceu ao som da viola: "O meu pai era conhecido pelo "Manuel da Viola", era um grande executante. Tocava a viola terceirense porque tinha estado lá na tropa". Manuel Francisco Costa que quando aos 10 anos Manuel Canarinho lhe ensinou os "primeiros toques" existiam centenas de tocadores na Ilha do Pico: "O Pico estava pejado de tocadores populares. Havia muitas tunas e grupos folclóricos. Agora há poucos, contam-se pelos dedos". E construtores de viola da terra? "Que eu saiba só no Faial. Existiam dois construtores aqui nas Lajes. Já faleceram". pico 95 pico museu

LAJES, TERRA DE BALEEIROS

E já ao fim do dia, as pernas dobrando-se em cansaço, a visão alcança as Lajes do Pico lá embaixo. Paro num café junto à estrada repleto de propaganda eleitoral ( estamos ainda nas vésperas das eleições) e onde descubro um cartaz que anuncia baile de chamarritas esse fim de semana na Casa do Povo das Ribeiras. Numa rotunda, ainda antes de começar a descer para a baía das Lajes, um outdoor anuncia Berta Cabral como presidente de todos os açorianos enquanto do outro lado outro outdoor elege Vasco Cordeiro é já o presidente. A resposta viria dias mais tarde, a 14 de Outubro. Muitos ilhéus estão saturados: "Essa porra nunca mais acaba". Eu próprio acabei nos últimos dias por ser interpelado por políticos em campanha que me apertam a mão, me oferecem propaganda e até me batem nas costas. Numa papelaria, explico que sou continental quando um grupo de apoiantes de um partido político chega com t-shirts de diversos tamanhos. "Não tens mais um M?", pergunta uma senhora, "esta acho que não me serve". A minha "política" aparece à entrada das Lajes quando volto a apreciar o Pico, o omnipresente, o totem tutelar que gere o humor dos ilhéus. Nesse dia, o topo cobre-se por um novelo de nuvens. Nas Lajes, como não podia deixar de ser, tudo remete para as baleias, seja em museu, seja na antiga fábrica de baleias transformada em Centro de Artes e Ciências do Mar seja...na calçada portuguesa. pico 39 pico 41 pico 40 pico 38

MOINHO DE VENTO EM SÃO JOÃO

Sempre que posso e que a vegetação me permite, respiro o ar húmido e bravio do mar do Pico junto às rochas de lava, as pedras negras que formam figuras e se contorcem e que em dias de tempestade são fustigadas por vagas muito brancas de espuma. Ali bem junto à estrada, dou com as grades rectangulares e muito brancas de um Moinho de Vento, este recuperado. Está fechado mas dizem-me que bem conservado. Mais tarde, vou à procura de informações e nada melhor que me socorrer do "Inventário do Património Imóvel dos Açores": "Moinho de vento giratório, assente num embasamento circular. Tem base troncocónica em alvenaria de pedra, com juntas consolidadas a argamassa e caiadas. O corpo giratório, de madeira, tem escada que gira em conjunto servindo de leme, cobertura cónica e hélice de quatro pás. Encostado à base troncocónica situa-se um reservatório de água de construção recente". pico 37 pico 36

NO LITORAL SUL DO PICO

São João, terra de queijo, de baleeiros e de Genuíno Madruga, o primeiro português a navegar em solitário à volta do mundo. pico 33 pico 34 pico 35