VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
"Entre", diz Manuel Canarinho, quando me ouve aproximar da porta aberta. Está na sala a jantar com a esposa. Dele diz o insuspeito e conhecedor Manuel Francisco Costa, director do Museu do Pico: "O Manuel é o herdeiro dos cantadores extraordinários que a ilha tinha. Além de grande executante (rabeca, viola da terra, bandolim, violão) é o verdadeiro cantador da chamarrita. A voz dele é metálica, aguda, seca, gritada, quase marroquina".
É esse exímio cantador e tocador de chamarrita do Pico que eu encontro agora na sua casa das Pontas Negras, um homem criado entre o campo e a música tradicional. "O meu pai tocava, a minha mãe também, enfim, isto da música já vem dos meus antepassados." Manuel é de um tempo em que não havia nem rádio nem televisão. "O primeiro rádio na Ponta Negra apareceu quando eu tinha 10 anos. Eu só ouvia a música tocada pelos meus pais. O meu pai tinha um pequeno acordeão. Era um som alegre e era convidado para tocar no carnaval. Já a minha mãe tocava guitarra portuguesa".
De todos os intrumentos que foi aprendendo a tocar, Manuel Canarinho afeiçou-se pela rabeca: Aprendi a tocar o violino sózinho, de ouvir nos bailes de chamarrita. Adoro violino porque suaviza a música, alisa-a, é como se fosse a lixa..."
A introdução de bandas, conjuntos, relegou os bailes de dança e a chamarrita quase para a extinção. " A chamarrita era uma coisa dos antigos", afirma Manuel Canarinho que
aponta o documentário sobre a mesma realizado por Tiago Pereira como uma das razões para o ressurgimento actual: "Fazia-se um ou dois bailes por ano de chamarritas aqui na zona das Lajes do Pico e agora é quase todos os fins de semana".
A chamarrita já é dançada em bares e discotecas da ilha. Apesar de tudo, Manuel Canarinho gostava que os jovens do Pico ganhassem a mesma paixão e orgulho que viu no Canadá junto dos jovens emigrantes. "Eu acho que tem a ver com a saudade, eles cantam e tocam com uma alegria e presença em palco muito boa. E eu acho também que daqui a 50 a 100 anos será nas nossas comunidades que as tradições se vão manter. É a saudade..."
José Felix (que substituiu em determinada altura Manuel Canarinho na rabeca), Manuel André (viola da Terra) Aurora (bandolim) e Sr. Soares (bandolim)
Sr Soares
António Domingos Ávila, 67 anos, baleeiro, ex-arpoador, mais conhecido por "Ritinha", fala comigo na esplanada do estabelecimento com o mesmo nome, nas Lajes do Pico: "Tenho este café há mais de 30 anos. Andava na baleia e regressava aqui para uns petiscos, uns caldos de peixe".
Como muitos ali nas Lajes, pertence a uma família de baleeiros. "O meu bisavô foi capitão de uma baleeira americana em New Bedford. Na minha família havia arpoadores e trancadores".
O "bichinho" da caça à baleia cresceu cedo em António Domingos Ávila. Aos 16 anos começou a ir ao mar em substituição de algum marinheiro que adoecia ou se pisava. Mais tarde, tirou carta de arpoador. "Comecei a trancar baleia aos 19 anos".
Ao longo da vida de marinheiro, "Ritinha" foi também mestre da pesca do atum em Portugal, em Cabo Verde e durante oito anos em San Diego, na Califórnia. O "bichinho" de perseguir baleias nunca o perdeu.
" Fala-se muito de ser uma actividade perigosa mas eu digo sempre que há actividades mais perigosas em terra. Se a baleação continuasse, as mulheres íam. Eu tenho 67 anos e lembro-me de ter morrido um baleeiro quando era criança. De resto, havia pisaduras, partia-se um bote, um braço de um marinheiro, um dedo..."
"Ritinha" argumenta que já no seu tempo os utensílios de caça à baleia haviam melhorado: "Foi evoluindo com o tempo. Ultimamente, os panos eram mais leves, os arpões também, os cabos também. O perigo era menor".Ainda hoje "Ritinha" não se conforma de como tudo terminou- "foi tudo negociado nas nossas costas".
Sobre a actividade de avistamento de baleias para turistas, conhecida pela designação inglesa de "whale watching", tem a sua opinião bem definida: "Andei nove anos a fazer "ww". O que aconteceu é que das duas ou três baleias que dantes apareciam, agora aparecem nove ou dez e o negócio cresceu muito. Só que antigamente a baleação dava a ganhar a muita gente e agora há um tipo que tem uma empresa, que não percebe nada daquilo, leva os turistas haja baleia ou não e dá a ganhar uns farelos aos que trabalham para ele".
António fala dos empresários de "whale watching" sem papas na língua: "Aprenderam comigo. Íam de qualquer forma e espantavam as baleias. Ora, como o cachalote vê para a banda é preciso entrar sempre pelo rabo delas e com cautela para não espantar".
"Ritinha" vê o mar dos Açores a ficar saturado e acha que mais tarde ou mais cedo vão ter de ser abertas quotas: "O mar vai ficar saturado de cachalotes e já falta comida aos golfinhos. Tudo tem de ter um controlo".
Francisco Joaquim Machado vai perfazer 94 anos no dia seguinte. É um homem alto, ombros largos e seco de carnes, que tem orgulho em colocar o tradicional chapéu de palha na cabeça antes de falar dos velhos tempos.
Apesar da manhã nebulada e chuvosa acaba de chegar da pesca. “Pesquei uns sargos para grelhar. Se toda a minha vida foi o mar, porque não hei-de pescar?” Na realidade, um apaixonado pela vida marítima numa vila, a das Lajes, consumida pela baleação, Francisco viveu como a maioria dos homens do Pico, entre as ondas e a terra. “Era baleeiro mas barbeiro também e ainda tinha vinho, batatas, laranjas e milho. Tinha de se ir buscar o dinheirinho a tudo”.
Francisco trabalhou de barbeiro na tropa e instalou-se como tal nas Lajes mas difícil seria não se deixar envolver pela febre das baleias. “O meu avô era baleeiro e o meu pai também. Naquele tempo, nas Lajes, toda a gente ía às baleias para conseguir mais algum dinheiro”.
Um tempo em que ter uma única profissão não era suficiente e em que a maioria só pagava a conta da mercearia quando recebia do armador. Os que mesmo assim não se governavam, emigravam. O “barbeiro” nunca emigrou, o que faz dele e dos seus cerca de 40 anos de caça à baleia um caso de exemplar veterania, premiada no dia em que o ex-Presidente da República Jorge Sampaio o condecorou.
Ao som do foguete, o sapateiro largava a oficina, o agricultor deixava a enxada, o pedreiro saltava do andaime. “Eu pegava na bicicleta e ía. Uma vez deixei um homem a quem estava a cortar o cabelo na cadeira, a meio de um corte mas ele era baleeiro e também precisava de ir”.
Dentro do bote e muito mais tarde ao leme de uma lancha, o barbeiro passava a velho lobo do mar. “Fui arpoador, depois passei a oficial e no fim pilotei uma lancha”.
Em 40 anos, Francisco Joaquim Machado enfrentou e caçou dezenas de baleias. Algumas, poucas, deram-lhe água pela barba. “Às vezes aparecia a ponta do rabo da baleia e partia a canoa. Já nos últimos tempos, o vigia deu sinal de um cachalote. Arpoámos a baleia mas ela não foi para baixo como esperávamos”. Francisco deu ordens à tripulação para recuar o bote umas “30 a 40 braças” para que ela ficasse à proa. “Não foi o suficiente. A baleia veio rente ao bote com a cabeça e deixou-a caír devagarinho. Não o quebrou mas encheu-o de água”.
O mestre Francisco mandou imediatamente cortar a linha não fosse a baleia arrastar tudo. “Pus a bandeira no ar, chamei a lancha e mandei mastro, palamenta e tripulação para a lancha. Eu era o mais velho, fiquei no bote depois de esgotada a água a balde”.
De repente, o vigia avisa que a baleia continua por ali. “Fomos a terra, umas 5 a 6 milhas buscar outra canoa. Largámos a remos, demos com ela, sempre a bater por cima e por baixo. O arpoador pegou na lança e matou o cachalote. Depois amarrámos um cabo grosso à lancha e rebocámo-la para a fábrica de São Roque. Não se pisou ninguém”.
A vida de baleeiro era perigosa e Francisco teve convites para a trocar pela mais rentável e segura pesca do atum. “Tive vários convites para mestre de uma traineira do atum. Perguntava à minha mulher o que ela achava e ela dizia que não percebia do assunto, dizia para eu decidir. Eu não dormia a pensar naquilo até que cheguei à conclusão: Para quê deixar uma vida que já conhecia por outra nova. Afinal de contas eu andava nas baleias desde os 17 anos…”
Medo sempre teve. “Quem não tem medo é ignorante. Eu tinha medo mas o medo tem de ser afastado senão não conseguia enfrentar a baleia”. Já muitos entrevistadores lhe perguntaram pela “vida dura” da baleação. “Eu respondo sempre que sim, que era dura e perigosa mas que também é perigoso andar de avião, de autocarro. Há desastres em todo o lado. Em toda a minha vida de baleeiro morreram cinco ou seis tripulantes”.
Um dia dos anos 80 do século passado, a actividade que dava vida a uma ilha inteira terminou. Francisco pertenceu à comissão instaladora do Museu dos Baleeiros nas Lajes. Quando o então Presidente da República Mário Soares o visitou, interpelou-o. “Perguntei-lhe porque é que não nos dava uma quota para apanharmos por ano 3 ou 4 machos. Era um pingo de água no Oceano. Respondeu que não, que a CEE não deixava…”
As Lajes do Pico, que tinham chegado a ter 16 botes com sete homens em cada a caçar as baleias perdeu a sua principal actividade. Em 87, alguns ainda desafiaram a lei. Depois, cada um foi à sua vida. Uns foram para a pesca do atum, outros emigraram, outros ficaram com as profissões que já mantinham.
Nesse ano chegou às Lajes o francês “pioneiro” de avistamento de baleias para turistas. Nasceram os museus e a memória da baleação já preservada em livro através de autores como Dias de Melo ficaria gravada em quatro paredes. Não têm faltado verbas para recuperação dos botes e construção de réplicas e são realizadas regatas em diversas ilhas. “Foi muito bom manterem as canoas e é pena não poderem manter uma pequena quota. Eu bem dizia ao Mário Soares: Senhor Presidente, são três ou quatro cachalotes, não representam nada. E ele sempre: “É a CEE, a CEE…”