VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
Foi na sua casa do Carapacho, com uma vista magnífica sobre o mar da Graciosa que encontrei o construtor de violas e tocador de viola da terra Elder Eiró. Fui lá graças a outro tocador mais jovem, António Reis, que aprendeu a tocar com Eiró. No dia em que lá passámos Eiró estava à espera de três jovens de Guadalupe a quem ensina gratuitamente viola da terra para que a arte não se perca. Na Graciosa, há necessidade de que existam mais jovens a envolver-se com a viola característica dos Açores. A emigração e migração para fora da ilha esvazia o lote de potenciais tocadores. Curiosamente, dos três jovens que apareceram naquele dia em casa de Elder, uma rapariga ia em breve partir para estudar fora da Graciosa.
O próprio Elder vive parte do seu tempo no Carapacho e outro tanto na Califórnia. Foi nos Estados Unidos, para onde emigrou em 1965, que começou a construir violas da terra. "Até aos 20 anos trabalhei a terra. Depois trabalhei de carpinteiro aqui na Graciosa e depois emigrei em 65. Estive na costa leste, no Massachussets como operador de máquina de fazer caixas de papelão. Nos tempos livres aprendi a construir violas".
O pai era tocador e mandava nos bailes de roda. Foi ele que insistiu para Eiró começar a construir. "Comecei por construir um violão velho e experimentei colocar-lhe os corações como na viola da terra. Mas a minha pequena não gostou. Depois, fiz a primeira viola da terra".
Em 1976, mudou de ares. Da costa leste foi viver para a Califórnia. "Trabalhei numa fábrica de waffles, depois fui novamente para uma fábrica de papelão e uma vez numa filarmónica de lá conheci um indivíduo que me arranjou trabalho na Lockeed, numa fábrica de armamento. Andei lá 23 anos a limpar os escritórios, vim com uma reforma linda".
Comprou três livros sobre a viola e foi construindo para os emigrantes. "Cada viola leva o nome do dono, onde eles estão e quanto custou", diz a sorrir. Também já construiu nove bandolins, dois violões, três guitarras de fado e consertou muita viola. "Mas já não conserto. O conserto dá muito trabalho e não compensa. Mais vale comprarem uma nova".
Existem vários casos de pessoas que se dirigem a Eiró para consertar violas da terra que pertenciam aos antepassados. "São violas que pertenciam à família e têm muito afecto por elas. Houve um que me disse: Esta viola, senhor, é do meu avô. Custe o que ela custar, pago o que for preciso para a consertar. Tinha conchas inscrustadas..."
Uma vez, apareceu-lhe uma encomenda de conserto do Hawai. "Eu disse ê senhor eu conserto a viola mas tu assinas uma carta em como és responsável pelo transporte para o Hawai, eu cá não vou ser responsável pelo transporte...Ele concordou, assinou o termo de responsabilidade e lá chegou a viola da terra ao Hawai. Era do avô dele. Já mandou o endereço do Hawai para eu ir lá uma semana a casa dele mas nunca fui..."
Na Califórnia, aos fins de semana, Eiró organizava bailes de roda com pessoal quase todo da Graciosa, tocando e cantando as modas da ilha. "Aqui é preciso não deixar morrer a tradição. Há pouco tempo fizemos um baile aqui no Carapacho e eu esino estes jovens para que isto não morra. Quando eu morrer, vai o António Reis (aponta para o António) ensinar".
Manuel Tomaz Picanço da Cunha tem 73 anos e foi o último moleiro de Vitória. Chegou há semanas de uma viagem ao Canadá-" fui a um casamento"-e é a primeira vez que regressa ao moinho desde então. O moinho de vento foi do seu sogro até este não poder trabalhar mais. Mais tarde e durante 30 anos, Manuel Tomaz teve-o por sua conta. Deixou de trabalhar nele há cerca de seis a sete anos mas com excepção dos mastros e de um velho motor que o sogro comprou em 1969 por "70 contos", o moinho está um regalo para a vista. Foi todo restaurado e pintado com ajuda a 50 por cento do governo regional.
"Chegámos a ter, aqui na Graciosa, 23 a 24 moinhos. Não havia farinha, era preciso moer a cevada, o trigo, o minho. Agora já não há necessidade. Ele ainda está em condições de moer. O senhor pode ver aqui as velas...mas já não tenho ninguém da família que queira pegar nisto e era preciso alguém com prática".
Manuel só não tem condições para reparar o anexo onde jaz o velho motor de 1969. "Isto foi a minha vida. Eu era escravo do vento. Quando o vento amansava, não podia moer tanto, era assim...Um a um vai mostrando os utensílios, até chegarmos a um búzio. "Este búzio? Servia para eu apitar e me trazerem mais material para moer sem ter de sair daqui"

A vindima ali é assunto de família. Ajuda a filha, ajuda o genro, ajudam todos a colher as vinhas e a acartar os 18 cestos (dantes eram 50) para o lagar, bem à moda antiga, ainda com as pipas de vinho em madeira fabricadas no continente. "Aqui também temos tanoeiros ou ainda temos mas estes são melhores". Um dos familiares salta para dentro da cuba em cimento e pisa a uva, depois atira-se à prensa mecânica. "Para ver as antigas, em madeira, tem de ir ao nosso museu. Já lá foi? Lá estão as prensas de antigamente".
A vindima termina em casa do filho de Maximino, que me convida a comer postas divinais de moreia frita e bicuda cozinhadas pela esposa. O ambiente é de fraternidade familiar. Devia ser sempre assim.