VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
E de repente os Biscoitos num dia de sol, turistas e emigrantes luso-americanos em família, alguém a chamar "daddy" e um casal sentado com familiares a explicar todos os pormenores do voo no dia seguinte em direcção à Califórnia. "Sim, oh yeah, vamos-vos levar a Monterey, muito bonito... Logo ali ao lado, as vinhas, o verdelho
Caminhar na costa sul da Terceira significa caminhar na companhia do comprido e irregular dorso de São Jorge, uma nesga da ponta sul do Pico a espreitar. Um dia, no desmaiar cor de rosa do pôr-do-sol tive a felicidade de ver o perfil magnânimo do Pico ao longe entalado entre o corpo escuro de São Jorge e uma massa de nuvens que atravessava o céu desde o Pico de Santa Bárbara.
Uma das magias de caminhar no Verão numa ilha com variadas entradas rochosas para o mar é poder parar e dar um mergulho. Ao contrário da mais badalada Silveira e da turística Biscoitos, a Ponta das Cinco Ribeiras estava em sossego à minha espera. Não saí de lá tão depressa. Aliás, só decidi vir embora quando o nadador-salvador me viu a preparar-me para mergulhar mais uma vez e comentou "Não há condições..." Pensei que estava a brincar até ver por debaixo de mim, na água esverdeada várias "águas vivas" (alforrecas). "Você é que sabe, eu gosto de avisar..."
Alguém, calculando a invasão, colocou à frente da escada em pedra que dá acesso à sua porta e à sua zona de varandim: "entrada privada". Privado ou não, vai-se enchendo tudo à medida que se aproxima a hora de soltar o primeiro touro. Há sempre mais um bébé ou um idoso ou um menos afoito que pretende passar para a zona de segurança sem que existam grandes reticências da parte de quem já lá está. Afinal, compreende-se, é mais um que não quer ficar à mercê das corridas desenfreadas do touro e da corda.
A princípio, recém-chegado, faço também o número de me encolher o mais que posso junto à parede mas apercebo-me que ali vou ver muito pouco e mais, percebo que seres menos ágeis e mais pesados andam lá embaixo em correria. Salto para a rua e então apercebo-me do corre corre e de quem verdadeiramente enfrenta o animal quando este desata a correr pela rua. À conta de um grupo de rapazes pouco encorpados e ágeis que não param de chatear o animal, pulula toda uma multidão de homens-algumas mulheres, sobretudo raparigas com o namorado. O que há a fazer é nunca perder de vista a cabeça do pelotão e correr desalmadamente sempre que esta desata a correr. Ao fim de uma, uma hora e meia, a dança entre touro e a rapaziada mais afoita não tem previsão de paragem. Os homens das máquinas de filmar e dos dvd's das marradas estão há muito instalados em cima de um muro. Bato em retirada para o que restará das Sanjoaninas. Já venho ao longe a descer em direcção ao centro da cidade quando ouço um foguete: Lá vai mais um touro!
É estranho chegar a uma ilha e aterrar directamente numas festas, mesmo que nos seus últimos dias. Cheguei à Terceira e daí a pouco estava a descer as ruas inclinadas de Angra sem saber para onde me virar, apesar dos sucessivos comentários de que a edição deste ano das Festas Sanjoaninas está mais fraca e com menos público.
Há cor, música no ar, gargalhadas ecoam das travessas, vendedores atravessam as ruas, a cidade diverte-se sem rasto aparente da melancolia da crise.