VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
Alguém, calculando a invasão, colocou à frente da escada em pedra que dá acesso à sua porta e à sua zona de varandim: "entrada privada". Privado ou não, vai-se enchendo tudo à medida que se aproxima a hora de soltar o primeiro touro. Há sempre mais um bébé ou um idoso ou um menos afoito que pretende passar para a zona de segurança sem que existam grandes reticências da parte de quem já lá está. Afinal, compreende-se, é mais um que não quer ficar à mercê das corridas desenfreadas do touro e da corda.
A princípio, recém-chegado, faço também o número de me encolher o mais que posso junto à parede mas apercebo-me que ali vou ver muito pouco e mais, percebo que seres menos ágeis e mais pesados andam lá embaixo em correria. Salto para a rua e então apercebo-me do corre corre e de quem verdadeiramente enfrenta o animal quando este desata a correr pela rua. À conta de um grupo de rapazes pouco encorpados e ágeis que não param de chatear o animal, pulula toda uma multidão de homens-algumas mulheres, sobretudo raparigas com o namorado. O que há a fazer é nunca perder de vista a cabeça do pelotão e correr desalmadamente sempre que esta desata a correr. Ao fim de uma, uma hora e meia, a dança entre touro e a rapaziada mais afoita não tem previsão de paragem. Os homens das máquinas de filmar e dos dvd's das marradas estão há muito instalados em cima de um muro. Bato em retirada para o que restará das Sanjoaninas. Já venho ao longe a descer em direcção ao centro da cidade quando ouço um foguete: Lá vai mais um touro!
É estranho chegar a uma ilha e aterrar directamente numas festas, mesmo que nos seus últimos dias. Cheguei à Terceira e daí a pouco estava a descer as ruas inclinadas de Angra sem saber para onde me virar, apesar dos sucessivos comentários de que a edição deste ano das Festas Sanjoaninas está mais fraca e com menos público.
Há cor, música no ar, gargalhadas ecoam das travessas, vendedores atravessam as ruas, a cidade diverte-se sem rasto aparente da melancolia da crise.
Depois de ter atravessado as ilhas de São Miguel e de Santa Maria, regresso aos Açores na próxima sexta-feira para continuar o périplo, desta vez atravessando a Ilha Terceira. Chego a Angra do Heroísmo dia 29, no final das Sanjoaninas e ainda a tempo de assistir a uma tourada à corda na cidade.
Abraço a todos
Nuno Ferreira
"Os salários começaram a aumentar. Ganhava-se quatro escudos na lavoura, passou a ganhar-se 14 escudos"
António Baptista, ex-regedor de Santa Bárbara
" Eu era criança, ia a pé até ao aeroporto para vender fruta, hortaliças. Nesse tempo, vivia-se muito mal. Os adultos diziam: "Olha lá vem o miúdo outra vez"
Sr Fontes, taxista e ex-dono de restaurante
"Todos os filmes que estreavam em Lisboa vinham no dia seguinte para o cinema do aeroporto. Na biblioteca do Clube Asas do Atlântico, tinhamos todas as publicações literárias. Nunca li tanto como naquela altura"
"Na Calheta, para onde eu fui como professora primária, quando construíram o aeroporto, não havia água nem luz nem rádio..."
"Quando o primeiro avião aterrou em Santa Maria, aterrou numas chapas de ferro. Houve crianças que foram a correr pela canada do aeroporto. Os americanos acenderam uma fogueira com carvão mineral, eles ficaram de boca aberta, nunca tinham visto. Depois, tiraram salsichas e ofereceram. As crianças não aceitaram com receio. Só aceitaram os cigarros".
"O Clube Asas do Atlântico era o clube da elite. Era complicado entrar lá. O hotel também, era frequentado pela elite do aeroporto e nem todos os funcionários entravam. Tinha orquestra permanente. Gente solteira e sem mulheres agregava-se à volta da sociedade criada no clube e no hotel. Havia jogos florais, desporto, bailes, jogos de canasta, bridge. A classe operária tinha os seus próprios bailes e grupo de futebol"
"O trânsito da TWA ou da PAN AM era muito grande. O meu marido era director da TWA e normalmente tirava fotos com os actores que passavam na escala de 45 minutos. O Charlton Heston perguntou-lhe qual o filme dele que preferia e ele respondeu: "Ben-Hur". E ele: "So do I my boy"
As pessoas ouviam dizer que vinham as celebridades e corriam para o aeroporto.
Dona Aida, ex-funcionária dos CTT do Aeroporto
Dos Anjos para a frente a caminhada é calma, entre prados, pastagens, a eterna neblina cobrindo o Pico Alto à minha esquerda, vacas cruzando a estrada juntamente com veículos na paz dos deuses. Outras observando-me com aquele olhar curioso e espantado a que me habituei à muito em estradas que atravessem pastagens ou herdades.
A vida é levada com bonomia e parcimónia. Não há pressa para nada e ainda bem.
Do trilho, acabei por descer até aos Anjos, mais uma zona balnear esperando e preparando-se para o Verão- a piscina estava a ser "trabalhada" por funcionários- e local famoso pela passagem ali de Cristovão Colombo em 1493 de regresso da viagem de reconhecimento da América. Conta-se que o governador da ilha, assolada na época por corsários, o tomou por mais um até esclarecer quem se tratava.
Nos Anjos, foi construída uma ermida onnde terá sido celebrada uma missa em 1493. A ermida foi reconstruída entre 1674 e 1679 e restaurada em 1893.
Passei junto à estátua que assinala a passagem ali de Cristovão Colombo e fiz-me à estrada em direcção a Vila do Porto e, mais tarde, o aeroporto.