terça-feira, 3 de julho de 2012

TOURADA À CORDA EM SÃO BENTO, ANGRA DO HEROÍSMO

As pessoas começam a chegar muito tempo antes. Quando chegam, já as portas e muitas janelas estão protegidas contra as arremetidas dos touros. É sábado em São Bento, Angra do Heroísmo e celebra-se o último dia das Festas Sanjoaninas de 2012. Há tempo para a diversão. Famílias inteiras instalam-se em varandas, janelas e nos patamares das portas. Não tarda uma mole de forasteiros tentará conseguir mais um espaço na zona protegida. tourada a corda 4 Alguém, calculando a invasão, colocou à frente da escada em pedra que dá acesso à sua porta e à sua zona de varandim: "entrada privada". Privado ou não, vai-se enchendo tudo à medida que se aproxima a hora de soltar o primeiro touro. Há sempre mais um bébé ou um idoso ou um menos afoito que pretende passar para a zona de segurança sem que existam grandes reticências da parte de quem já lá está. Afinal, compreende-se, é mais um que não quer ficar à mercê das corridas desenfreadas do touro e da corda. A princípio, recém-chegado, faço também o número de me encolher o mais que posso junto à parede mas apercebo-me que ali vou ver muito pouco e mais, percebo que seres menos ágeis e mais pesados andam lá embaixo em correria. Salto para a rua e então apercebo-me do corre corre e de quem verdadeiramente enfrenta o animal quando este desata a correr pela rua. À conta de um grupo de rapazes pouco encorpados e ágeis que não param de chatear o animal, pulula toda uma multidão de homens-algumas mulheres, sobretudo raparigas com o namorado. O que há a fazer é nunca perder de vista a cabeça do pelotão e correr desalmadamente sempre que esta desata a correr. Ao fim de uma, uma hora e meia, a dança entre touro e a rapaziada mais afoita não tem previsão de paragem. Os homens das máquinas de filmar e dos dvd's das marradas estão há muito instalados em cima de um muro. Bato em retirada para o que restará das Sanjoaninas. Já venho ao longe a descer em direcção ao centro da cidade quando ouço um foguete: Lá vai mais um touro! tourada a corda 5 tourada a corda 11 tourada à corda 3 tourada a corda 12 tourada a corda 9 tourada a corda 8 tourada a corda 7 tourada à corda 2 tourada à corda 1

domingo, 1 de julho de 2012

EM ANGRA NAS SANJOANINAS

P1080870 É estranho chegar a uma ilha e aterrar directamente numas festas, mesmo que nos seus últimos dias. Cheguei à Terceira e daí a pouco estava a descer as ruas inclinadas de Angra sem saber para onde me virar, apesar dos sucessivos comentários de que a edição deste ano das Festas Sanjoaninas está mais fraca e com menos público. P1080755 Há cor, música no ar, gargalhadas ecoam das travessas, vendedores atravessam as ruas, a cidade diverte-se sem rasto aparente da melancolia da crise. P1080740 P1080700

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NA TERCEIRA A PARTIR DE SEXTA 29

vol_mapa_ilha_terceira_390px[1] Depois de ter atravessado as ilhas de São Miguel e de Santa Maria, regresso aos Açores na próxima sexta-feira para continuar o périplo, desta vez atravessando a Ilha Terceira. Chego a Angra do Heroísmo dia 29, no final das Sanjoaninas e ainda a tempo de assistir a uma tourada à corda na cidade. Abraço a todos Nuno Ferreira

sexta-feira, 15 de junho de 2012

EM CASA DE ANA FONTES

Foi especial a visita a casa da artesã e poeta popular Ana Fontes, que vive num local ermo da freguesia de Santa Bárbara. Tal como em muitas outras situações na Ilha de Santa Maria, foi o professor José Melo, meu cicerone e amigo na ilha, que me levou lá. Ana, 80 anos, vive isolada do mundo e no seu mundo, numa pequena casa recheada de imagens, peças de artesanato, peças surrealistas, montagens e colagens feitas com as fotos dos seus entes queridos, mortos e vivos. A pobreza impediu-a de estudar mais do que a antiga terceira classe e isso parece tê-la marcado para sempre. Para fazer os exames da terceira classe, na época, eram necessários 62 escudos para o requerimento oficial e os pais não tinham. «Isto é um assunto doloroso de suportar e de registar mas eu sou obrigada a fazê-lo», escreveu num dos 20 livros manuscritos onde guarda milhares de quadras. O cenário de pobreza numa família numerosa e numa zona onde a electricidade chegou em 1991, moldou a sua vida. Sofrendo de insónias, Ana Fontes, costureira de profissão, passou a usar o dedal e a agulha e a caneta. «Tudo resolvo e faço nas horas nocturnas quando as crises mais dolorosas me permitem», escreveu. A obra popular de Ana Fontes foge aos cânones habituais e a sua excentricidade e mesmo morbidez- coloca, por exemplo, imagens de entes queridos «dormindo» nos caixões nas colagens emolduradas - causa estranheza. Ana responde em quadras: «Não te rias de quem sofre/ Da minha vida não faças antena/ Lê medita e põe no cofre/ E não sofras a mesma pena”. E ainda: “Eu sou tudo o que não presta/ Para quem com o mal me ofende/ mas do bom ainda me resta para quem me compreende». Na introdução ao livro de quadras sobre o linho «A Voz do Linho», editado pelo Centro Regional de Artesanato, o padre Jacinto Monteiro classifica a «Aninhas de Fontes» de «epifenómeno» cuja «imaginação frenética cria fantasmas e vê fantasmas». Ana não dorme com «a linguagem grosseira dos cães ou o cântico matutino de neuróticos galos». Para aliviar o sofrimento começou muito cedo a criar peças com material reciclado, algumas que podem ser confundidas com mero retrato da vida rural de outrora, outras surrealistas macacos com cauda de peixe ou bailarinas com cabeças de burro. Se Ana Fontes retrata em pormenor os ofícios e a vida quotidiana da freguesia há 60 anos da matança do porco e desfolhada ao namoro junto à fonte, fá-lo marcada pela vivência pessoal. Cada peça tem uma história. «Eu vivi isto tudo», explica e em cada peça feita com o mais diverso do material, aponta o nome de quem lá está. Num assomo macabro, encena o seu próprio enterro numa das peças mais insólitas. À entrada de casa, Ana criou uma árvore genealógica «da vida e da morte» onde cada casal da família surge numa casa à janela, os que morreram e os que ainda vivem, com as respectivas datas de nascimento por debaixo da foto de cada um. Tudo começou naquela casa, após o seu casamento e quando já não costurava para fora. «A casa tinha pouco recheio. Foi uma forma de dar brilho à casa. Só comprava arames e colas, tudo o resto foi feito com roupas que vinham da América, flores de cebola, garrafas, latas, ferro, material que dava à costa…» Hoje, Ana vive inconformada com o desinteresse público e oficial pelo espólio. Já tem oferecido peças e pergunta se queremos alguma. «Já cá vieram antropólogos, veio um artesão brasileiro mas ninguém pega nisto. Eu tenho amor a isto, é a minha família, gostava que alguém ficasse com ela».

terça-feira, 5 de junho de 2012

COMO O AEROPORTO AGITOU SANTA MARIA

P1060167 "Os salários começaram a aumentar. Ganhava-se quatro escudos na lavoura, passou a ganhar-se 14 escudos" António Baptista, ex-regedor de Santa Bárbara P1060129 " Eu era criança, ia a pé até ao aeroporto para vender fruta, hortaliças. Nesse tempo, vivia-se muito mal. Os adultos diziam: "Olha lá vem o miúdo outra vez" Sr Fontes, taxista e ex-dono de restaurante P1060134 "Todos os filmes que estreavam em Lisboa vinham no dia seguinte para o cinema do aeroporto. Na biblioteca do Clube Asas do Atlântico, tinhamos todas as publicações literárias. Nunca li tanto como naquela altura" "Na Calheta, para onde eu fui como professora primária, quando construíram o aeroporto, não havia água nem luz nem rádio..." "Quando o primeiro avião aterrou em Santa Maria, aterrou numas chapas de ferro. Houve crianças que foram a correr pela canada do aeroporto. Os americanos acenderam uma fogueira com carvão mineral, eles ficaram de boca aberta, nunca tinham visto. Depois, tiraram salsichas e ofereceram. As crianças não aceitaram com receio. Só aceitaram os cigarros". P1060155 "O Clube Asas do Atlântico era o clube da elite. Era complicado entrar lá. O hotel também, era frequentado pela elite do aeroporto e nem todos os funcionários entravam. Tinha orquestra permanente. Gente solteira e sem mulheres agregava-se à volta da sociedade criada no clube e no hotel. Havia jogos florais, desporto, bailes, jogos de canasta, bridge. A classe operária tinha os seus próprios bailes e grupo de futebol" P1060083 P1060078 P1060089 "O trânsito da TWA ou da PAN AM era muito grande. O meu marido era director da TWA e normalmente tirava fotos com os actores que passavam na escala de 45 minutos. O Charlton Heston perguntou-lhe qual o filme dele que preferia e ele respondeu: "Ben-Hur". E ele: "So do I my boy" As pessoas ouviam dizer que vinham as celebridades e corriam para o aeroporto. Dona Aida, ex-funcionária dos CTT do Aeroporto P1060071 P1060125

AEROPORTO DE SANTA MARIA

E finalmente, Vila do Porto e mais à direita, o aeroporto, um lugar hoje repleto de fantasmas do passado: estrelas de Hollywood, cantores, ditadores, comerciantes que vinham vender hortaliças, frutas, ouro...militares, políticos nacionais e regionais...Um tempo que mudou Santa Maria e a marcou para sempre. P1060064 P1060077

ANJOS-SÃO PEDRO

P1050971 Dos Anjos para a frente a caminhada é calma, entre prados, pastagens, a eterna neblina cobrindo o Pico Alto à minha esquerda, vacas cruzando a estrada juntamente com veículos na paz dos deuses. Outras observando-me com aquele olhar curioso e espantado a que me habituei à muito em estradas que atravessem pastagens ou herdades. A vida é levada com bonomia e parcimónia. Não há pressa para nada e ainda bem. P1060011 P1050967 P1050977 P1050995 P1060007 P1060021

ANJOS

P1050957 Do trilho, acabei por descer até aos Anjos, mais uma zona balnear esperando e preparando-se para o Verão- a piscina estava a ser "trabalhada" por funcionários- e local famoso pela passagem ali de Cristovão Colombo em 1493 de regresso da viagem de reconhecimento da América. Conta-se que o governador da ilha, assolada na época por corsários, o tomou por mais um até esclarecer quem se tratava. Nos Anjos, foi construída uma ermida onnde terá sido celebrada uma missa em 1493. A ermida foi reconstruída entre 1674 e 1679 e restaurada em 1893. Passei junto à estátua que assinala a passagem ali de Cristovão Colombo e fiz-me à estrada em direcção a Vila do Porto e, mais tarde, o aeroporto. P1050948 P1050942 P1050791 P1050783 P1050793

segunda-feira, 28 de maio de 2012

P1050768 Começo então a atravessar pastos pela zona mais seca e plana da ilha, a caminho dos Anjos P1050772

ATÉ À BAÍA DOS ANJOS

P1050757 A costa já a caminho dos Anjos

DO PICO ALTO AO BARREIRO DA FANECA

P1050706 P1050725 Barreiro da Faneca P1050730

NO PICO ALTO EM DIA DE NEVOEIRO

P1050695 Nunca mais regressara ao Pico Alto desde que ali estivera em Fevereiro de 1989 a cobrir o horrendo e estúpido acidente de aviação que matou mais de 140 pessoas num charter que ía para a República Dominicana. Lembro-me de pormenores de que gostaria não me lembrar e recordo quando desci a uma freguesia, muito provavelmente Santa Bárbara ( já não recordo bem) e o padre mostrou as liras e dólares que a população recolhera e lhe entregara. Mostrou-me uma mão cheia de passaportes e notas que haviam voado desde o Pico Alto. António Moura, do Arrebentão, contou-me agora, quando o visitei, que nesse dia estava com a mulher a trabalhar nas vinhas de São Lourenço. "Ouvimos um bruuum muito grande e eu pensei que eram as obras do porto, em Vila do Porto. Depois, vimos coisas a boiar no mar e papeís a voar..." P1050701

DO ARREBENTÃO AO PICO ALTO

P1050670 Fui subindo até ao Pico Alto entre flocos de névoa que varriam a copa das árvores e a estrada P1050687

NO ARREBENTÃO COM A FAMÍLIA MOURA

António Moura, 78 anos e a esposa são conhecidos na Ilha de Santa Maria por não terem carro e andarem quase sempre a pé, como antigamente. Caminham até à baía de São Lourenço para tratar das vinhas que lá mantêm e fazem o mesmo se tiverem que tratar de uns assuntos em Vila do Porto. Caminhadas à parte, António, a esposa e o irmão, Manuel Freitas Moura, 81 anos, são um poço de sabedoria rural e de hospitalidade num rincão, a freguesia de Santa Bárbara, onde se vive de porta aberta, numa segurança que há muito se perdeu no continente. P1050824 António e o irmão Manuel foram os últimos moleiros de Santa Bárbara. Os moinhos ainda lá estão, desactivados, num prado verde envolvido, na manhã em que estive com eles, em neblina fina e húmida. “Os dois moinhos são da família mas só um é nosso. O meu pai esteve na América entre 1922 e 23, depois voltou, casou e construiu o moinho em 1929”. O pai ainda trabalhou sozinho. Mais tarde pagava a moleiros até os filhos crescerem. “Começámos nós a tomar conta do moinho. Depois os moinhos de vento começaram a afracar por causa das moagens de motor, deixámos de mão…” P1050823 Apesar de possuir moinhos de vento, a família sempre trabalhou a terra, hoje uma raridade em Santa Maria. “O meu pai tinha terras, vacas e um carro de bois. Eu tive os primeiros sapatos aos 23 anos. Tinhamos sempre pão em casa com fartura e comíamos couves e o queijo branco que a minha mãe fazia”. Naquele tempo, muita gente ía para a baía de São Lourenço trabalhar as vinhas. “Eram ranchos de pessoas. Hoje ninguém quer ir e tem vinhas abandonadas. Nós ainda vamos aguentando as nossas e fazemos vinho de cheiro para a gente. Dantes vendia-se todo e chegava-se a exportar pipas para São Miguel em barcos”. P1050830 Hoje, tal como na Ilha de São Miguel, a lavoura quase morreu em Santa Maria. Ao contrário dos micaelenses, contudo, os marienses não se viram para a produção de leite e preferem a da carne. “Aqui o negócio é a carne. O bezerro de Santa Maria é um luxo. Em São Miguel é preciso uma dúzia deles para pesar o que um pesa aqui”, diz António. A emigração esvaziou a ilha mas António vê-a como uma bênção. “Havia muita fome, não havia que vestir, que calçar. Quando o padre António Leite chamou a atenção em São Miguel que havia aqui muita gente a precisar de emigrar, foi muita gente. Foi bom para os que foram e bom para os que ficaram”. Os que não emigraram ficaram com as terras dos que partiram : “Sempre limpávamos os prédios e recebíamos uma rendazinha”. Dos Estados Unidos começaram a chegar os bens que dantes eram escassos. Primeiro, farinha, leite, mais tarde roupas. P1050817 A maioria dos emigrantes de Santa Bárbara, no entanto, estão no Canadá. A mulher de António tem lá toda a família. “Já lá fomos, é “snow” (neve) por todo o lado. Eu gosto mais disto aqui, aqui sempre trabalho por conta própria. Nunca trabalhei mandado.” P1050799

DE SANTA BÁRBARA AO ARREBENTÃO

P1050655 Quando deixei Santa Bárbara, a névoa começava a apoderar-se de tudo, como uma manta sobre as casas. P1050662 P1050665