VIAGEM A PÉ PELAS NOVE ILHAS DOS AÇORES REALIZADA EM 2012 PELO JORNALISTA NUNO FERREIRA (REVISTA EPICUR E REVISTA ONLINE CAFÉ PORTUGAL, autor do livro "PORTUGAL A PÉ", EDIÇÃO VERTIMAG) APOIO VERTIMAG, Pousadas de Juventude dos Açores e SATA Contacto: nunocountry@gmail.com
Em plena hora de maior calor, vejo um casal de estrangeiros entregar-se em vigorosas passadas na direcção dos Lourais e decido fazer o mesmo. Ainda respiro e caminho normalmente até à vizinha Fajã dos Bodes mas em breve acabo exausto e sem forças a lutar contra o poder inclemente do sol e da humidade envolvido por faias, incenso e o som dos pássaros. Vejo-me obrigado a parar incontáveis vezes. Este trecho do trilho é uma longa subida até aos Lourais. O Pico, sempre ele, imutável, uma coroa de nuvens brancas sobre o dorso, é uma miragem.
O meu ritmo cardíaco dispara. Procuro parar nas sombras, Encosto-me às pedras do trilho. Nos intervalos, espreito mais uma vez a Ilha do Pico mas naquele dia, tudo é demasiado sofrido. Continuo a via-sacra empapado em suor,a t-shirt colada ao corpo, o cabelo colado ao boné, quando passa por mim um rio de franceses sorridentes que tiveram a feliz ideia de descer o trilho em vez de o subir de forma insensata como eu.Procuro não dar parte de fraco e sorrir. Devo ter largado o sorriso mais estafado e amarelo deste mundo. Pergunto a um dos caminhantes se ainda falta muito para os Lourais. Ele explica-me em bom francês que sim, que passarei uma ribeira e depois terei de continuar a subir, o que me deixa ainda mais desanimado.
A vida na Fajã do Sanguinhal era uma vida de isolamento rural, à luz do candeeiro a petróleo, entre a pedernia. "Trabalhava-se de enxada da manhã à noite o milho, a batata, o inhame, tomate, melancias, melão. Era muito trabalho. Penava-se muito".
Também se cultivava a vinha. "Fazia-se muito vinho e havia muitas adegas. A aguardente do Sanguinhal corria por essa ilha fora e para a América. Íam lá viajantes comprar`aos potes de cada vez. Tinhamos carros de bois na fajã para acartar as uvas"
Para saír da Fajã do Sanguinhal, ía-se a pé por trilhos. "Para irmos à missa na Igreja da Fajã da Caldeira de Santo Cristo, era hora e meia para cada lado. A escola era na Fajã Redonda (hoje igualmente abandonada. Para saír para o resto da ilha, era a muito custo. Não havia caminhos como hoje. Para o fim, já havia um burro para ajudar a fazer o carreiro até à Caldeira de Santo Cristo".
Para poder chegar à carreira de camioneta que às quartas e sextas atravessava a ilha do topo às Velas, tinham de subir um carreiro a pé até lá bem acima, na Serra do Topo.
Quando do sismo de 1980, muitos habitantes já tinham emigrado, sobretudo para o Canadá. "Era difícil viver debaixo daquelas rochas" explica Manuel Lourenço. "Quando veio o abalo, estavamos poucos. Não podíamos saír porque as veredas fecharam. O helicóptero foi lá duas vezes. Acabou-se. O abalo fechou aquelas terras todas. Ainda lá voltei, já só havia faias e silvado, as casas caídas. Deixámos lá 10 alqueires de campo e um de arvoredo e vinha. Tudo abafado pela pedra".
Manuel Lourenço: "A aguardente do Sanguinhal corria por essa ilha fora e para a América"
De vez em quando, numa curva, a estrada abre perspectivas sobre o caminho percorrido. Para trás, já ficou a Calheta encostada ao mar, encaixada numa concha na serra. Num patamar sobre o canal, surge a Ribeira Seca.
Não há nada de particularmente agradável em caminhar num dia assim, quente e muito abafado. Hei-de chegar lá abaixo à Fajã dos Vimes empapado em suor.
As pernas pareciam pesar o dobro a cada passada. A t-shirt encharcou ao fim de uns minutos de subida na Ladeira Velha, que liga a Calheta, posta em sossego junto ao mar à zona mais alta e à estrada para a Ribeira Seca. Se o calor afecta o esforço, o calor combinado com a humidade afecta muito mais. As primeiras visões das fajãs do sul da ilha a chamarem-me lá em baixo junto a um azul tranquilo compensaram tudo.
Uma cantoria ao desafio encerra o Festival de Julho na Calheta, Ilha de São Jorge. Bruno Oliveira, 24 anos, cantador de Norte Pequeno e pertencente a uma nova geração de cantadores que emergiu na Terceira, São Miguel e São Jorge, é um dos convidados. A Calheta é apenas uma das etapas de um Verão de cantorias que leva Bruno Oliveira a viajar com frequência para as outras ilhas e em especial para a Terceira. Em Novembro, acompanhará João Leonel, "o retornado", entre outros, numa viagema Winnipeg, Canadá.
Bruno, que encontro na Calheta, começou "sem querer" a 5 de Setembro de 2009. "Eu tinha ido à festa da Fajã da Caldeira de Santo Cristo. Estava a passar junto a uma tasca e estava um amigo meu, o João Bettencourt com um fulano a tocar viola. Eu parei ali a escutar o tocador porque eu também toco e às tantas o tocador pediu para eu tocar para ele descansar os dedos. O João Bettencourt começou a desafiar-me nas cantigas, eu comecei a responder. Fui logo convencido a cantar "as velhas" à noite".
Bruno não queria ir. "Na hora da cantoria eu não queria ir mas acabei por cantar e o pessoal gostou. Depois, filmaram e colocaram no You Tube. Esse video levou muita gente a ver-me".
Bruno começou a cantar em festas em São Jorge e em 2011 estreou-se na Terceira. "Nós, os de São Jorge, seja eu, o Nuno Paz ou o João Bettencourt, somos bem recebidos lá, sem nenhum problema".
Na cantoria ao desafio, como normalmente é a Comissão de Festas que escolhe quem canta com quem, Bruno Oliveira tem de estar preparado para cantar com qualquer um. "Tanto posso cantar com um da minha geração como cantar com um veterano, uma das glórias da Terceira, como o "Retornado".
Apesar da cantoria ao desafio ter sido sempre uma tradição em São Jorge, não consegue ganhar as dimensões da Terceira. "Aqui a afluência é mais pequena, a ilha também é mais pequena. Na Terceira, as festas, a cantoria, a tourada à corda, corre nas veias do pessoal. Lá consegue-se fazer uma cantoria com mais gente. Aqui para fazer cantorias tem de, normalmente, vir pessoal da Terceira".
Além de cantar ao desafio, Bruno Oliveira, 24 anos, toca viola da terra e bandolim no Grupo Etnográfico da Beira e clarinete na Sociedade Filarmónica Recreio São Lázaro, em Norte Pequeno, de onde é natural.
As pessoas chegam bastante tempo antes e os mais velhos ou os mais cautelosos levam cadeiras e instalam-se em zonas onde possam assistir à tourada à corda com visibilidade e ao mesmo tempo cautela. Naquele domingo de final de Julho, terminava o Festival de Julho na Calheta. Um domingo particularmente quente e húmido.
Aterrei em São Jorge, instalei-me na Pousada da Juventude da Calheta e acabei pouco depois numa...tourada à corda que fazia parte do programa das Festas de Julho. Havia gente por todo o lado, a maioria instalados nos muros do Porto. Muitos eram emigrantes falando entre si em inglês, outros eram gente de outras freguesias acotovelados a beber minis, comendo bifanas, enquanto os mais novos mergulhavam nas águas esverdeadas do cais. Tal como na minha última semana na Terceira, São Jorge recebeu-me com muito calor e humidade.
Ao longe, o Pico, sempre ele, em mutação permanente, ora envolto em véus de nuvens ora colorido por um céu de lusco fusco ora negro como breu
Passei nas Lajes, em casa de Hélio Costa, taxista e famoso por escrever um número substancial dos enredos do Carnaval da Terceira. Quando o entrevistara em 89, ainda Hélio estava a começar aquela que é hoje uma carreira consagrada. O escritório, onde hoje passa grande parte do tempo, está recheado de fotos, de enredos, de homenagens.
"Eu agora já só transporto os miúdos das escolas, o resto do tempo estou aqui a escrever". Todos os anos Hélio Costa escreve enredos para 45 a 50 grupos, seja para a Terceira, seja para grupos de emigrantes no Canadá e nos Estados Unidos que mantêm a tradição enraizada na diáspora.
Hélio Costa começou por participar em bailinhos de carnaval como dançarino aos 7 anos de idade. Em 1985 fez pela primeira vez uma letra para o seu grupo, o das Lajes. "Esse tema saíu muito bem. Em 1986, fiz dois, em 1987 já fiz quatro e depois foi sempre a crescer".
Hoje, Hélio Costa já escreveu 964 enredos e confessa que já tem dificuldade em encontrar temas para escrever. "Normalmente, os grupos dizem-me o que pretendem mas é cada vez mais difícil porque a verdade é que já se escreveu sobre tudo, política, vida social, tudo".
Em Julho, já tem cerca de 16 enredos pedidos para o carnaval de 2013. "Passei a tarde toda a escrever. Mas a melhor altura do ano é o Inverno, é mais propícia. Os enredos para os emigrantes são os que têm de estar prontos mais cedo, em Setembro, porque eles lá vivem com horários rígidos e ensaiam apenas ao fim de semana".
Na Terceira, os enredos têm de estar prontos um mês antes. "Um mês antes do carnaval eu não pego em mais nada. Chego a rejeitar trabalho porque eu gosto de ter tempo para poder dar uma achega, um acerto. É uma carga de trabalho mas eu tenho paixão por isto".
O Carnaval na Terceira não tem parado de crescer. "O nosso povo adora, enche os salões. Dantes era só domingo, segunda e terça, agora de há uns anos para cá é ao sábado e já querem começar à sexta para os grupos se poderem apresentar todos..."
Hélio Fala em carga de trabalhos mas não vive sem os enredos: "Tenho um enorme orgulho por ter sido embalado com esta tradição. Quando estou a escrever eu falo, eu rio, eu represento o papel de cada uma das personagens".
Pires Borges, 23 anos depois de me ter levado a conhecer o Carnaval da Terceira, fotografando uma alcatra de peixe que teve a gentileza de me oferecer
Em 1989, ainda colaborador permanente do "Expresso" fui convidado pela Câmara de Angra do Heroísmo a cobrir o único e inestimável carnaval terceirense. O responsável pelo convite e pela dinamização era um tal de Pires Borges, que muitos anos depois, agora guia turístico, voltou a ser o meu cicerone e amigo na Terceira. Apresentou o livro "Portugal A Pé" mas, mais do que isso, deu-me incontáveis dicas sobre a cultura popular da Terceira.
Infelizmente e por razões que me foram alheias, o velho texto sobre o Carnaval da Terceira de 89 nunca foi publicado mas eu descobri-o no baú e dá-me um gozo imenso recordar o artigo, feito com a colaboração dedicada do Pires Borges e de um motorista da câmara angrense (AS FOTOS NÃO SÂO MINHAS. Algumas foram retiradas do Blog Desambientado e reportam-se a anos recentes):
No exterior da Sociedade Recreativa da freguesia de São Mateus vive-se o ambiente dos grandes dias de festa. Apesar de estarmos em Fevereiro, a temperatura é amena e grupos de rapazes conversam animadamente à porta enquanto outros se sentam com as namoradas nos muros das casas defronte. Hoje, quatro de Fevereiro, realiza-se o ansiado ensaio geral da dança de carnaval da freguesia.
O salão da Sociedade Recreativa, decorado com enfiadas de lâmpadas coloridas e palmas nas paredes, está cheio como um ovo. Na primeira fila senta-se um grupo de filarmonistas que tocará a música que o grupo dançará. Por detrás, está o público, a maioria pescadores e respectivas famílias, ansiosos por verem pela primeira vez a dança da freguesia. Há mães com as filhas ao colo, hordas de populares encostados à parede e junto á porta.
O ensaio geral destina-se em princípio a que a dança seja aprovada pela freguesia mas há que contar com o envolvimento de toda aquele gente. É que na plateia estão os familiares, as costureiras dos fatos, os autores da música e do enredo. A expectativa não pode ser maior.
Um pouco mais tarde, em frente à Sociedade União Católica da Serra da Ribeirinha, rapazes atravessam excitadamente a rua em frente para entrarem numa garagem. Aí, duas senhoras visívelmente extenuadas terminam os últimos fatos carnavalescos. Apesar de já serem 23h00, continuam a costurar rodeadas por elementos da dança da Ribeirinha. “Não temos feito outra coisa”, contam as mulheres, que recebem 7 mil escudos por cada fato, “ontem foi até às 3 h00 da manhã e hoje às 8h00 já estavamos aqui outra vez”.
A azáfama nestas duas freguesias da Terceira era perfeitamente justificada. Nos três dias seguintes, mais de 30 danças carnavalescas de outras tantas freguesias percorrem cerca de 31 salões da ilha. Ao todo, mais de mil músicos, figurantes e dançarinos estão envolvidos. O público acorre em massa às Sociedades Recreativas, calculando-se a capacidade total das salas em cerca de 20 mil lugares.
As danças carnavalescas dividem-se sobretudo em danças de espada, bailinhos e comédias. As danças de espada são as mais dispendiosas, envolvem grande número de dançarinos e figurantes e têem como enredo dramas históricos ou amorosos. Figuras fundamentais da dança de espada são o mestre e o ratão. Ao mestre, empunhando uma espada e um apito, compete saudar a assistência e apresentar, em quadras, o enredo. O ratão, empunhando uma velha bengala, é quem introduz de uma forma jocosa o elemento humorístico.
Os bailinhos, são danças mais ligeiras cujos assuntos recaiem sobre temas sociais. envolvem sátiras às Câmaras da ilha, aos emigrantes, a tudo o que pertença ao universo dos muitos autores de enredos. Por fim, as comédias são pequenas rábulas com no máximo 5 ou 6 figurantes.
Hoje, as danças desenrolam-se nos salões das Sociedades Recreativas mas dantes o seu espaço privilegiado eram os adros das Igrejas e a rua em frente às casas das pessoas mais importantes. Daí chamar-se dança de rua ou de dia. O grupo saudava a povoação, criava um espaço quadrangular entre a multidão onde apresentava o enredo e no final, agradecia às pessoas presentes fazendo inclusivamente uma colecta para pagamento das despesas. Os figurantes eram sempre homens que representavam também os papéis femininos, uma vez que às mulheres não era permitido entrar.
Com a passagem para os palcos, as danças foram evoluindo. A dança mais tradicional, a dança de espada, está a ser superada em quantidade pelos bailinhos e pelas comédias. As mulheres passaram a integrar os figurantes e este ano houve pelo menos uma mestre feminina.
Ao contrário dos corsos carnavalescos que se centram num cortejo envolvendo sobretudo adereços, disfarces e quadras satíricas, as danças carnavalescas terceirenses implicam a criação todos os anos de novas dezenas de enredos e dezenas de músicas diferentes. Grupos de criação quase institucionalizados, existem em cada freguesia. Aquele que escreveu enredos no ano anterior, é procurado para escrever enredos no ano seguinte, o mesmo se passando com os autores das músicas e os ensaiadores.
Hélio Costa, um habitante das Lajes que guia habitualmente um táxi na Praia da Vitória, escreveu onze enredos este ano. Fez um inclusivamente para o Canadá. “Já venho em Danças há 24 anos mas só comecei a fazer enredos há cinco quando não havia ninguém que me fizesse um enredo a mim”, explica. Hélio só faz enredos cómicos. Põe lá um pouco de crítica social mas, como explica, “as críticas que se ouvem nesta época a deputados, partidos e Câmaras não os afecta em nada”.
Além de escrever enredos, também participa como figurante. foi 5 anos seguidos vestido de velha. Este ano fez de lavrador e de astronauta. mas a sua especialidade são agora os enredos. “Quantas vezes vou sózinho no táxi, vem-me uma ideia, paro o carro e escrevo à pressa para a ideia não fugir”, conta.
Alguns dos enredos, sobretudo nas danças de espada, são dramas intermináveis que levam o público á lágrimas. Embora durem habitualmente no máximo 45 minutos, há deles que se estendem por quase duas horas. Uma dança de Porto Judeu, “Maria Vieira”, contando a história de uma criança vítima de tentativa de violação e assassinato por um lavrador, teve particular sucesso: mulheres, homens, novos e velhso eram vistos a enxugar lágrimas teimosas. mas muitos enredos levam a assistência à gargalhada. Desde “Um casal americano vem à Terceira” até “Uma inspecção para a tropa”.
A ilha é envolvida quase inteiramente na celebração. Algumas empresas fecham mesmo as portas e a maioria dos participantes trabalha no Sábado ou pede dispensa para poder estar livre na segunda feira”. É a melhor festa do ano. A gente até se esquece de dormir e de comer”, comentava Hélio Costa. “A segunda feira é o dia mais bonito que temos na nossa terra”, explicava emocionado Elias Ferreira, autor das músicas da Dança de Espada da Freguesia da Ribeirinha.
“A freguesia inteira vibra com o Carnaval”, comenta Maduro dias, do Gabinete da Cidade de Angra do Heroísmo, “ e gera-se uma grande quantidade de actores populares. Depois de ao fim de dois ou três anos se andar à volta da ilha a apresentar durante 3 dias um tema num palco e a receber palmas, é como um veneno que se toma e que no ano seguinte se tem de tomar outra vez.”
O fenómeno está tão enraizado que até as crianças das escolas estão a organizar as suas danças. nalgumas freguesias, sa danças partem das Sociedades Recreativas mas noutras organizam-se fora delas, em casas particulares ou em garagens e há freguesias que apresentam várias danças. A tradição começa também a extravasar os limites da própria ilha. enquanto danças de freguesias da ilha foram actuar ao Canadá e à América, danças de emigrantes do Canadá e da Califórnia vieram até à Terceira.
Para satisfazer a curiosidade do público citadino, a Câmara de Angra abre o Teatro Angrense para que as danças possam passar também por ali. Resultado: durante três dias seguidos é quase impossível arranjar um lugar sentado. No primeiro ano tiveram de fechar o Teatro à 1h00 da manhã. O público não gostou, queria continuar a ver as danças. “Quase que ia havendo tareia”, explicam-nos.
Durante todo esse tempo, ninguém arreda pé e as pessoas têem o costume de levar farnel para não perderem o lugar. O panorama dentro do velho teatro é de pasmar. Com uma lotação de 700 pessoas sentadas, terá nesses dias cerca de mil pessoas. Como não há lugares marcados nem camarotes reservados, o público acotovela-se em magotes o mais democraticamente que é possível imaginar. Apesar do espectáculo se prolongar horas e horas a fio, ninguém parece perder o interesse.
Nos caóticos bastidores do teatro, cruzam-se travestis, astronautas, cartolas e familiares dos dançarinos. À medida que vão chegando, os grupos são informados de quantos têem à frente. Quando vêem que vão ter de esperar muito, preferem partir para outra freguesia.
A primeira dança a actuar no teatro é a da Ribeirinha, cujos dançarinos, vestidos de azul e com chapéus de dois bicos, representavam o “Sacrifício do Amor”, um enredo adaptado de um romance francês. “Aquele ali é o Conde, um traiçoeiro”, vai-me sussurrando ao ouvido Henrique Cardoso, o responsável pelos ensaios das danças. “Isto agora é muito triste, ela vai chorar”, explica, “é que o Conde traiçoeiro quer casar com a rapariga”.
Cada dançarino da Ribeirinha gastou cerca de 40 contos na roupa e nos gastos com o transporte. Ao longo da ilha, dezenas de camionetas e automóveis circulam pelas estreitas estradas transportando os grupos de freguesia em freguesia. Os músicos, dançarinos, figurantes, actuam dez, onze, doze vezes no mesmo dia em pequenos palcos de madeira e perante plateias invariavelmente apinhadas. Como não há um programa previamente estabelecido para toda esta movimentação, é usual os grupos esperarem por vezes uma hora ou mais atrás de outros dois ou três grupos que chegam à mesma freguesia para actuar. Ao fim dos três dias do Carnaval, nunca se consegue completar o circuito das freguesias da ilha. “Faz-se uma média de vinte a trinta, é difícil chegar às trinta”, explicavam elementos de um bailinho das Lajes.
O estrondo de um foguete assinala a chegada de mais uma dança a cada freguesia e há delas que colocam dísticos saudando os visitantes. “Bem vindos”, lia-se nos Biscoitos. Em frente a cada Sociedade está sempre um mar de viaturas estacionadas. Todos os Salões onde passamos estão completamente cheios, seja no Cabo da Praia,em Porto Judeu, S. Sebastião ou Ribeirinha. A cena é sempre a mesma: um pequeno palco de madeira, por vezes um cenário e a sala cheia.
Percorrendo as freguesias, passa-se por camionetas de carga de onde saiem rapazes de chapéus emplumados e fatiotas listadas. Na beira da estrada, passam populares carregados com sacos cheios. São farneis para comer durante a noite passada na Sociedade. Aí, o carnaval é ocasião para um forte convívio social. Rapazes e raparigas têem ocasião para mais livremente do que o habitual, se encontrarem nos Salões Recreativos.
Para os músicos, dançarinos e figurantes, o esforço é enorme. Ao fim de oito freguesias, de oito Sociedades diferentes, estão visívelmente extenuados. “Começámos às duas da tarde”, explicava um músico que por volta das 0h30 acabara de actuar em S.Sebastião. “Especialmente para quem está a tocar instrumentos de sopro ou a cantar”, explicava Manuel Bernardo, que tocava saxofone na dança de S. Bartolomeu, “ é muito cansativo”. Na noite anterior tinham acabado de actuar às 4h00 da manhã na Sociedade Velha das Lajes. “E estava tudo cheio”, conta.
Quem canta tem tendência a enrouquecer. Há quem tome pastilhas, quem se proteja de cachecol ao pescoço ou quem muito simplesmente beba aguardente. Aliás, a única compensação para os dançarinos , figurantes e músicos,é a comida e as bebidas que cada freguesia reserva para eles no fim de cada dança. “Hoje”, diziam-nos em S. Sebastião, “já por aqui passaram umas quinhentas pessoas a comer”.
Na segunda Feira à tarde, encontramos o grupo de S. Bartolomeu prestes a partir para percorrer mais uma parte da ilha. No dia anterior percorreram doze freguesias. “Sai tudo das costas dos rapazes”, explica José Ângelo, que ajudou a ensaiar a dança. Naquele momento, os dançarinos começam a entrar para a caixa aberta de uma pequena camioneta. “Vamos à conta de Deus e dos seus Santos”, ironiza Ângelo, “ e a polícia ainda chateia por irmos assim”.
A dança de S. Bartolomeu passou por algumas dificuldades nos ensaios. Há o costume na Terceira de dizer que “a porca comeu a dança” quando os dançarinos não se entendem e não conseguem levar ao fim os ensaios. “Não chegou a comer mas esteve quase”, comentava sorridente Manuel Bernardo, o saxofonista.
Mais adiante, na Sociedade Recreativa Nossa Senhora do Pilar, em Cinco Ribeiras, o director da Sociedade fecha o pano e espera que um grupo de rapazes novos de S. Mateus se prepare. O enredo da sua comédia versa o juramento da bandeira e todos estão vestidos à tropa. “É a melhor maneira de nos divertirmos, se não houver isto torna-se chato para a gente e para as outras pessoas”, explica José Agnelo. Em S. Mateus, está habituado a viver intensamente o carnaval. “É água, farinha, garraiadas, mascaradas”.
Na Serreta, uma freguesia ventosa implantada num declive do qual se avista ao longe a Graciosa, homens jogam dominó enquanto outros se juntam no bar com os seus bonés americanos. Lá dentro, na sala, mulheres , crianças e idosos esperam mais uma dança de espada. A ilha, como um todo, não parece viver para outra coisa durante aqueles três dias.
“Quem quiser saber qual o sentimento do povo, as perspectivas para as eleições, o que está mal ou bem, é ouvir durante três dias as danças de Carnaval”, comentava Maduro Dias. “O que é bom, o que é mau, o que está chocando o povo ou o que o está alegrando, aparece nestas danças. São um perfeito inventário”.
Manuela Cardoso, que vive em Angra do Heroísmo, faz Alfenim e já criou um site de divulgação. Trabalha como auxiliar de educação de manhã, educadora de tarde e à noite faz o alfenim. "O alfenim é como o cagarro, vem em Março, com as festas de Espírito Santo e vai em Outubro, quando a produção cai. No auge do Espírito Santo, eu peço duas semanas de férias e chago a dormir três horas. Chego a recusar encomendas".
Manuela começou a ver a mãe a fazer Alfenim aos nove anos. "A minha mãe é de São Jorge e veio viver para Santo Amaro, Ribeirinha. Aprendeu com uma vizinha e fazia apenas para uso caseiro, durante as Festas do Espírito Santo". O alfenim que fora e ainda é nalguns casos oferta de luxo passou a ser também durante as festas uma forma de as famílias obterem um rendimento familiar extra. "Tem havido muito secretismo. Os vizinhos escondiam dos outros. Há a história de uma senhora que estava a fazer alfenim às escondidas dos vizinhos e a filha viu que a massa estava a estalar e disse à frente de uma vizinha: "Mãe, já estala!" A mãe ouviu aquilo: "Já estala? Toma lá um estalo!"
Manuela Cardoso faz todo o tipo de peças que sirvam de ofertas e pagamentos de promessas no Espírito Santo. "As peças mais tradicionais são o menino, a menina, a perna, o braço, a mão, o pé, a garganta. A pomba, a rosquilha, a cabaça, também têm muita tradição em alfenim". Como estas peças estão relacionadas com as maleitas de cada um já chegaram a pedir a Manuela para criar em alfenim uma orelha, um nariz ou um olho.Manuela faz também outras peças de oferta ao Espírito Santo: Cestos de flores, cestos de frutas, oferecidos como gratidão ou devoção pura.
O sonho de Manuela Cardoso é exportar o Alfenim, divulgá-lo. "Acho que o Alfenim está muito desaproveitado. É uma massa que permite fazer tudo, é uma massa cujo único limite é a imaginação. Mais do que uma tradição, é uma arte. Já fiz estátuas, candelabros, faço peças para casamentos e baptizados. Há peças que me dão muito prazer fazer, como o São João ou a Nossa Senhora".
E qual o segredo do Alfenim? "O segredo está na confecção da massa, com acúcar, água e vinagre. O fundamental é o ponto da massa e a quantidade de vinagre. Há maior ou menor necessidade de vinagre consoante a qualidade do açúcar usado".
A pequena oficina do bairro São João de Deus, em Angra do Heroísmo, recheada de objectos os mais diversos em lata é o mundo de José Rocha Lourenço, 82 anos. Um universo feito de formas de queijo, cornucópias, lamparinas, um mundo mágico que só ainda não desapareceu porque José teima em o manter vivo.
A esposa faleceu, José sofreu um enfarte no último inverno que o obriga a fazer fisioterapia todos os dias, os outros latoeiros fecharam ou faleceram. O que leva este homem a manter-se ali, na acanhada oficina com vista para um pequeno quintal de manhã à noite? “Só me sinto bem aqui, vou à cidade mas é aqui que sou feliz.”
Pega num pequeno papel manuscrito com encomendas para mostrar o que tem para fazer. “Já tenho isto aqui tudo para fazer esta noite”. É como se ele se obrigasse a nunca parar. “Todos os domingos estou a vender na Feira do Gado, na Vinha Brava, já vendi muito mais mas ainda vendo, formas de queijo, formas de queijadas da Graciosa, tudo…eu bem quero ir depressa mas tenho de ir devagar”.
O pai de José Lourenço foi quem decidiu que seria latoeiro. “Ele era latoeiro e decidiu que um irmão meu ía para barbeiro e eu para latoeiro. Comecei aos 13 anos na Ribeirinha a trabalhar com ele e depois em 1980, no ano do terramoto, passei para aqui”. Aqui é uma pequena sala onde a luz entra por pequenas janelas em madeira branca e onde as mesas estão repletas de pedaços de lata. A um canto, há uma maquina com mais de cem anos e retratos emoldurados de um Sporting de outras eras, artigos de jornal e uma edição de uma revista do jornal “Diário Insular” cuja capa foi José, o último latoeiro. A edição encheu-o de orgulho. “E veio aqui a televisão, o senhor não viu?”
José Lourenço vai a uma das prateleiras ou abre um velho armário. “Isto aqui é uma cruzeta de petróleo. As mulheres usavam-na para levar à boca de fogo e ver se o pão estava cozido ou usavam quando estavam a fazer renda”. Depois, pega em formas: “Estas são formas de fazer bolachas, estas outras são de fazer donuts”. No armário, escondem-se um rol de apetrechos que enchem e preencheram a vida inteira de José Lourenço. “Este é um rolo para a massa de milho, isto são conchas de encher as moagens de farinha”.
Por todo o lado existem conchas de lata, lampiões em lata, tabuleiros em lata para colocar as queijadas…da Graciosa.
José Rocha Lourenço tem consciência que é o último na Ilha Terceira de uma mão cheia de latoeiros. “Só na cidade, eramos muitos, na Guarita, na Rua do Galo, na Rua da Sé, em São Pedro, casas de um só latoeiro e oficinas com vários empregados. Quando eu acabar, acaba a arte”.
José foi à escola secundária ensinar. “Ninguém aprendeu, eles não querem saber disto para nada. Dá muito trabalho. O senhor imagina o trabalho que leva a fazer um regador?”