segunda-feira, 26 de março de 2012

DESPEDIDA SUADA DOS MOSTEIROS

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Descer aos Mosteiros foi bem mais fácil do que saír de lá hoje de manhã pelo acesso em direcção à Bretanha e que passa junto ao Pico dos Gatos e termina na... Lomba dos Homens. De cada vez que olhava para trás, apreciava mais uma vez o quadriculado dos terrenos da freguesia, o batimento cardíaco acelerado.
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Uma subida suada, a mochila a pesar como chumbo, às tantas observada por vacas, sempre elas.
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domingo, 25 de março de 2012

OS ÚLTIMOS PESCADORES DOS MOSTEIROS

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Tomé Luís Ferreira, 69 anos

A comunidade piscatória dos Mosteiros, na ponta ocidental da Ilha de São Miguel nunca rivalizou com a de Rabo de Peixe mas já houve tempos em que mais de 20 a 30 embarcações saíam ao mar e em condições muito mais precárias do que as actuais. "Isto é para acabar", diz Tomé Ferreira, pescador desde os 14 anos de idade, "os mais novos não querem pescar, preferem receber o rendimento mínimo e receber do Banco Alimentar".
Os que ainda pescam no pequeno porto de pesca, remodelado há uns anos, pertencem a famílias que se dedicaram à pesca de geração em geração. Manuel Canário, 51 anos, pesca sózinho, a pesca que o pai lhe ensinou. "O meu pai morreu no mar há 30 anos, morreu ele e outro. Eu passei tempos difíceis. O corpo nunca apareceu. Sempre que vi alguma coisa aparecendo na água eu pensava no meu pai".
As obras no porto não melhoraram o mais complicado, os baixios da barra. "É muito baixa", explica Serafim Manuel de Matos, 71 anos, 40 de mar e 10 de emigrante no Canadá. "Agora, com motores, é fácil mas dantes saíamos a remos, quantos barcos viraram aqui".
O mar, esse, é, rico em peixe, garoupa, abrótea, congro, chicharro, cavala, cherne. Tomé Luís Ferreira, 69 manos, que o diga. Um dia pescou um espadarte de de 110 quilos. "Em três meses apanhei três peixes daqueles e deixei fugir um A fotografia desse espadarte está na América. Já disse à minha filha, que está em Fall River, que eu quero essa fotografia".
Tomé viu a vida andar para trás duas vezes. "Vi a morte duas vezes. Uma vez o mar estava bom ali para a Ferraria mas em chegando aqui não conseguia entrar na baía. Eu nem me lembro como entrei com o barco, o barco encalhou na areia. E de outra vez, a minha mulher *à espera da lancha, ficou debaixo da lancha, o mar estava muito ruim".
Tomé diz que os mais novos não querem a pesca porque é muito precária. "E o governo pede o segundo ano, o terceiro ano, ninguém com o terceiro ano quer pescar. Esses do governo podem saber muita coisa mas como pescar a 300, 400 metros de fundura, eles não sabem senhor".
O que sempre valeu aos pescadores dos Mosteiros foi manterem também alguma terra: "Batata, milho...e eu com 70 anos ainda vou cortar relva a Ponta Delgada".
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Mar bonito mas difícil: "Com os pés em terra a vida é mais fácil".
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Serafim Manuel de Matos, 71 anos: "Em Rabo de Peixe eles vivem só da pesca. Aqui sempre tivemos batata...A gente pagava a renda mas sempre tinha mais qualquer coisa".
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Areias negras dos Mosteiros
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A minha primeira moreia frita

Acabadinho de chegar aos Mosteiros e apesar do vento, consegui almoçar na esplanada e pedir a primeira moreia frita da viagem. Fresquinha, magnífica, ali a escassos metros dos arrifes negros da freguesia.
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Vista do Miradouro do Escalvado, Mosteiros ao fundo
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Várzea
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A caminho dos Mosteiros

sábado, 24 de março de 2012

ENSAIO NA FILARMÓNICA

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Não quis deixar os Ginetes sem assistir a um ensaio na Banda Filarmónica Minerva, uma vestuta instituição local. Estava uma noite húmida e fria. Os rostos antigos espalhados pelo corredor que leva à sala de ensaio inspiravam respeito. "Devia vir cá daqui a uma semana, vamos ter nesta sala 50 pessoas, a banda e o coro, tudo junto. Se puder passe por cá", convidou o ensaiador.
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Banda Filarmónica Minerva, ensaio de sexta-feira à noite
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Ginetes à noite

sexta-feira, 23 de março de 2012

"NÃO TROCO AS MINHAS ILHAS POR NADA"

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Em breve, a estação dos CTT dos Ginetes vai fechar. Muitos vão sentir falta do posto dos correios e outros tantos das desgarradas entre a guitarra portuguesa de José Duarte e a viola da terra de Luís Rego, 59 anos, 20 nos correios dos Ginetes. "Eu passava horas a ouvi-los, não havia movimento, eles tocavam", conta um morador.
Luís é de Ponta Delgada, mais propriamente da Fajã de Baixo e há muito que toca em grupos musicais. Teve uma banda em jovem chamada OS REBELDES. Tocavam temas dos Beatles e Rolling Stones. Já tocou viola acústica em grupos folclóricos, já tocou fado e participou recentemente na gravação de um cd prestes a ser lançado do grupo "Vozes do Mar do Norte".
Desde há quatro anos, Luís Rego interessou-se mais pela viola da terra: "É a nossa cultura, é a saudade, é o sentimento açoriano. Quase todas as famílias tinham uma viola da terra. O meu avô tinha uma viola da terra sempre deitada em cima da cama para não apanhar a humidade. Cresci com aquele som".
Luís Rego, prestes a deixar os Ginetes mal a estação feche, vai continuar a dedicar-se à música, à viola da terra e nos Açores. "Não troco as minhas ilhas por nada. Tenho um irmão em Inglaterra, outro em Lisboa, um em Boston e outro na Califórnia. Eu não largo as ilhas".

" A FERRARIA 'TÁ UM BOCADINHO PARA O LUXO"

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Nasceu na Maia, do outro lado da ilha, por isso aqui nos Ginetes lhe chamam o Manuel "da Maia", embora o seu nome de baptismo seja Manuel Pimentel da Costa. "O meu pai veio tomar conta de um prédio de um senhor de Guimarães. Estou aqui há 62 anos".
Manuel é agricultor, um dos últimos numa freguesia rendida à agro-pecuária e ao trabalho em Ponta Delgada, quando há. Mas, sobretudo, é um homem da terra, do mar, lavra, semeia, pesca e caça ou gostava de caçar. Já pescou tanto na Ferraria, onde agora foram remodeladas as termas, que tem lá um pesqueiro com o seu nome: Cova da Maia.
"Já pesquei muito, já ganhei taças, pesco moreia, abrotea, sargo, anchovas, bodeão, peixe viola...Anchovas é aos quilos..."
Ainda as termas da Ferraria não estavam remodeladas como agora, com restaurante e spa e piscina interior e massagens e já Manuel da Maia transportava doentes. "Cheguei a levar lá doentes que não conseguiam andar, iam em cima das albardas dos burros. Lembro-me de um trancador de baleias das Capelas que veo para aí todo curvado e ao fim de 21 banhos foi pelo seu pé". A água era bombeada e levada em barris para a velha casa que lá existia.
Hoje, Manuel não está muito satisfeito com a obra: "Gastaram milhares de euros ali, o nível de água está subindo imenso e o areal entope a tubagem. Tenho medo que fique ali um novo hotel Vista do Rei (referência ao Hotel Monte Palace que está abandonado junto à Lagoa das Sete Cidades).
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Manuel também acha que a Ferraria devia continuar a ser para todos: "Está um bocadinho para o luxo, o senhor está a compreender? Devia ser para todos como antigamente, o meu amigo entra e eu entro e entramos todos como na igreja, não é assim?"
Nos Ginetes, Manuel já foi um pouco de tudo desde dono de um dos cafés- "Eu não parava ali, eu sou homem da terra, como é que me dava ali?"- até presidente da cooperativa e regedor: "Fui o último regedor".
Enquanto foi novo, habituou-se a conhecer os Ginetes como uma freguesia agrícola. "A emigração levou muita gente. Temos mais de mil e tal pessoas dos Ginetes no Brasil, no Canadá e na América". A emigração levou consigo muitos braços para trabalhar o campo.
"E depois, veio a União Europeia, esqueceram-se todos da agricultura. O meu amigo conhece esta quadra? "Em Janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar põe-te a chorar, se vires torrejar põe-te a cantar". Esta freguesia era assim...agora não, a agricultura desapareceu, só há pecuária e quem está sem trabalho prefere o rendimento mínimo".
Manuel "da Maia", um dos últimos que cultiva o campo, vê com desgosto este ciclo vicioso: "O povo viciou-se nos subsídios e no rendimento mínimo. Eu cá sou um homem feliz, não sinto a crise e não preciso do governo para nada. Tenho a reforma e continuo plantando três alqueires de batata, um alqueire e meio de batata doce, feijão, banana..."
Por detrás de muitas das casas dos Ginetes existem quintais: "Dantes eram todos trabalhados. Hoje preferem criar um bezerro para receber o subsídio..."

quinta-feira, 22 de março de 2012

ÁGUAS BALSÂMICAS

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Posso comprovar depois de despir o meu equipamento impermeável e no decorrer de um dia de chuva, que as águas das Termas da Ferraria são boas, balsâmicas, tanto para o corpo como para o espírito. Mas caso tivesse dúvidas da propriedade das águas, não me faltariam testemunhos incentivadores da parte dos locais. Ele é o holandês com a pele em carne viva e que ao fim de duas semanas de Ferraria foi curado, ele é o da criança que já tinha ido a Cuba e se curou na Ferraria...
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